PARTE 10
CONTROVÉRSIAS NO ATENDIMENTO DO ADOLESCENTE
Voa, pra ser livre valem os riscos
Voa, foge
lá pros altos picos
O adolescente sofre perdas relativas ao
corpo e à concepção de mundo infantis. Obtém ganhos por meio do crescimento do
corpo e da expansão da sua participação no mundo. Vive impasses e indefinições,
sobretudo quanto à sexualidade e à escolha de gênero. Está autorizado a
experimentar uma enorme relação de sendas que estão ao dispor de sua liberdade.
O agente cultural – a família – sustenta-o, ao longo dessas vivências. Algum
recurso se dissipa. Atos anti-sociais acontecem nesse período de calibragem
juvenil.
O adolescente é imaturo. Parte para a
vida ignorante – quase inocente. Desinformado, busca avidamente modelos
identificatórios provisórios. Dotado de plasticidade afetiva, eivado de boas
intenções, procura fazer certo, fazer bem feito e fazer o bem. Desastrado,
inábil, destempera tudo. Começa de novo. Aprende a aprender. Aprende com a
experiência. Cheio de energia, desenvolve uma verdadeira pluripotencialidade,
invertendo e interessando-se por muitas atividades, simultaneamente. Pressente
que tem de sair do confortável pântano pegajoso, reino do ctônico, que
prevalece no ambiente familiar, e em direção às linhas retas e excelsas da claridade
apolínea. (9) Ao deixar o corpo da mãe, tem de se haver com a falta
renitente das coisas do mundo, que teimam em ir embora. Suplanta a falta,
projetando-se no mundo, conceitualizando e abduzindo, substituindo a
materialidade das coisas pela etérea e alusiva certeza dos conceitos, das
abstrações e das idéias. Objetaliza as coisas. Cria a lei, a beleza, a ordem, a
riqueza, o produto.(7) Traz
à luz um novo mundo, um heterocosmo claro, preciso, reto, útil, brilhante,
notável. Artificial.
Aos poucos, sente que terá de
constituir-se como indivíduo em constante processo de vir-a-ser. Não existe.
Não é, a não ser enquanto se está tornando, como ser de ação e de conduta
própria. É compelido a erigir-se como pessoa instruída pelo próprio código de
valor. Este também é fruto depurado dos constantes embates dos elementos
contraditórios que abriga dentro de si, em conflito perene. Comandado por sua arete, torna-se aquele que, de fato, é, no exercício da plenitude
inexorável das possibilidades de seu horizonte histórico. Vacilante, errático,
incongruente, em eterna transição, é constantemente convidado a se identificar.
Metamórfico, sua identidade muda o tempo todo.(4) É como se fosse renitentemente
lembrado que deve à sociedade uma pessoa. Espera adquirir capacidade de
aprender a viver a vida, extraindo dela sentido, usufruindo prazer,
elegendo destino, assumindo
responsabilidade pessoal por si mesmo. Fazer tudo isso com dignidade é
pré-requisito para que possa urdir e tecer uma obra. O jovem é imbuído pela
masculinidade que o impele para além de si mesmo. Ser jovem é aventurar-se,
correr riscos, saborear a variedade da vida. Duas pulsões sexuais parciais
cumprem seu papel: a Bemächtigungstrieb
ou pulsão de assenhoramento do objeto, pulsão de domínio, que impulsiona ao
ato, ao feito, à façanha. E a “pulsão beija-flor”,(6) que o impele ao contato múltiplo, variegado, abrindo o leque das
possiblidades de sua experiência.
Adolescer é crescerm expandir-se. Ao
longo desse período de vida, o jovem passa por transformações diversas que
enriquecem a sua existência.
O adolescente perde
· o corpo da
infância
· os pais da
infância
· a identidade infantil
· a concepção do mundo infantil com suas convicções e
certezas
· a antiga inserção edípica na novela familiar
· a indiferenciação sexual (2)
Ganha
· um corpo novo,
desastrado, belo insuficiente, forte
· uma nova floração da sexualidade (5)
· amplitude espacial
· amplitude conceitual.
Estranha
· o corpo novo
vivenciado com inquietude e estranheza
· a sexualidade e a agressividade emergentes
· o mundo adulto
· a leveza arfante da liberdade.
Interroga:
· quem sou eu?
· qual é o meu lugar no mundo?
Integra
· informações
· vivências
· descobertas
· experiências
· conceitos.
O adolescente é
· imaturo
· inseguro
· indiferenciado
· ambíguo
· incongruente.
Tem licença para experimentar de tudo
se pagar os preços sociais exigidos. (2)
Cometerá atos anti-sociais.
Provocará dissipação de recursos.
Perdas ocorrerão.
Terá de trabalhar em seqüência. Congruentemente.
Integrará e elegerá modos e práticas de
sexualidade.
Evoluirá para relações objetais mais
sofisticadas, culturalmente mais eficazes.
Incorporará num único caudal
identificatório as miríades de identificações ocorridas ao longo da infância.
Aprenderá a modular anseios ctônicos
regressivos, que convidam à dependência e à passividade.
Desenvolverá técnicas de emprego da
energia agressiva para vir a adquirir denodo, garra, persistência e capacidade
de luta.
Controlará e manejará a culpabilidade
inerente ao fato de estar vivo.
Esboçará defesas imperiosas que
consigam impedir lesões que menoscabam sua provisão narcísica.
Atravessará ritos de passagens, saindo
de condutas típicas da infância para comportamentos de rapaz e de moça.
Empregará sua vitalidade estuante para
provar as coisas todas do mundo, postas ao alcance de seu interesse.
Escapará da tendência filicida, que a
geração mais velha lhe oferece, de várias maneiras sutis.
Desenvolverá capacidade de percepção
ampliada, enxertada na imaginarização que amplia o alcance das vivências.
Tornar-se-á também capaz de
conceitualizar, de criar hipóteses, abduções, conceitos que possam representar
a “coisa” – objeto -, desde quando ela se foi como prosença. Passa a operar no
campo dos ideais, criando um novo mundo, cheio de arte,filosofia, ciência,
política, religião, leis. Para vencer a aspereza e a dureza das coisas do Mundo
da realidade – o Mundo tal como é -, erige afanosamente, em heterocosmo, uma
cultura. Nele, nela, instala um nicho de idealidade, concebendo formas ideais
de ser e de estar. Aprende a transitar com os dois pés metidos no chão da
prosaica realidade, as mãos bardando o barro da obra em processo de confecção –
poiésis -, o corpo arfante e suado
pelo trabalho exercido, e a cabeça metida nas nuvens das idéias e dos ideais,
aspirando, com a ingente ação de seu ser, a realizar a utopia que o instrui.
O adolescente usa a liberdade pessoal,
estribada pelo suporte afetivo e econômico dos pais, para ampliar a sua
participação no espaço e no mundo. Viagens, acampamentos, cursos, namoreos,
relações, empregos. Festas e acontecimentos. Iniciativas são tomadas e, logo,
abandonadas. O jovem é um perfeito amante do movimento: um nefelibata. Um corpo
em dança constante. Em pleno balé de autoconfecção.
Uma pulsão de crescimento impele o
jovem a sair de si. A desenvovelar-se. A transformar entranhas em atos, em
feitos. O jovem macho é propelido pelo turgor de sua sexualidade a estender-se
em direção ao outro. O pênis, ativado pela testosterona, indica a direção: “- É
lá!” Lá adiante: em direção ao outro. É no outro que está o complemento. É nele
que acontece o milagre da satisfação e do prazer. O macho parte em iniciativa.
Ousa, faz, busca. E encontra. Um milagre acontece. A força que o propulsa para
além de si, para além do conforto do convívio com seus pais, é enxertada por
uma pulsão parcial heterossexualizada. Compelido a deixar o pantonoso regaço
materno em direção às vastidões desassombradas do mundo, o jovem queima seus
navios: não há mais retorno possível ao seio ctônico da úmida refusão com a
grande-mãe. (9) No entanto,
o princípio feminino é hegemônico e prevalente. Um corpo novo, sedutor,
verdadeiro sucedâneo da mãe, será descoberto e encontrado. Tal corpo captura a
atenção e o interesse do homem, convidando-o a nele se instalar. A natureza
cobra o seu preço, impõe-se como sexualidade segmentada, diferenciada primeiro,
para, em seguida, impor a composição, o apropinquamento das bordas e das
diferenças. Sábia, lenta, longa, experiente, a natureza houve por bem partir o
patrimônio genético em duas parcelas. Ninguém é tão poderoso que detenha o
poder de gerar a si mesmo. Assim, a natureza impõe ao homem a associação, a
parceria. E garantiu-se com o privilégio da diversidade das composições
possíveis.
Os sexos são dois: masculino e
feminino.
Masculino depende da afirmação e dos
bons olhos do outro. Externaliza a pulsão. Aponta. Intruge. Penetra. Separa.
Age. Faz. É súbito, rápido, imperioso. Escancarado. Bruto. Quer agora. Usa
tempos curtos. Espamódicos. Brilhante. É pura ação. Fogoso. Aéreo. Celeste.
Conceitualizador. Tem de se constituir. Para tanto, apropria-se da coisa, do
objeto, dela. Transeunte. Façanhudo. Apolíneo. Luminoso. Explícito.
Desassombrado.
Feminino enovela e entranha a pulsão.
Acolhe. Recebe. Compraz. Funde. Seduz. Lento, vaporoso, lânguido. Suave e
charmoso. Sofisticado. “Quem sabe se...” Tempos largos. Extenso. Pantanoso.
Úmido, aquoso. Terráqueo. Ctônico. Indiferenciado. É, já, em si. Substrato.
Estabelecido. Dado posto. Ponto de inserção. De partida e de chegada. Interno,
velado, obscuro. Tergiverso. Sombrio. Enigmático.
Os sexos são três.
Quando há uma
biologia sexual determinada, instruída por um espírito que anseia por outro
sexo, o sexo da alma não corresponde em absoluto ao do corpo. É o que se
encontra em Mademoiselle de Maupin,
de Gautier, citada por Camille Pagila.(9:382) Como a natureza não
erra, apenas impõe, o terceiro sexo arromba a sexualidade ocidental cristã,
contingenciada na estreita e inconfortável partição binária de masculino e
feminino. A sexualidade escancara suas fauces: é múltipla, poliversa,
terrivelmente perturbadora. Absolutamente indecente, não convencional. Obscena.
Busca-se fazer coincidir empuxo
pulsional com biologia e psiquismo. Quando os três se encaixam, é bastante
confortável. Quando não, o indivíduo é obrigado a transitar pela periferia do
sistema e se safar de qualquer jeito.
O jovem inicia sua vida sexual
alocompartida e heterocompartida. A angústia aflora: a delícia e o horror da
excitação. A atração pelo sexo e o nojo dele. A nudez e as secreções secretas.
O inferno e o céu do repúdio e do bem-querer. A longa espera do macho. A
constante tergiversação da fêmea. O inesperado, o escândalo da proposta
indecente, o susto, a interrupção. A culpa por se deixar possuir pelos anseios
da sexualidade. O recomeço. O espanto com o “- Tão bom!” ou “- É só isso?” A
recidiva. A compulsão do eterno continuar
querendo.
Camille Paglia afirma que “o sexo é o elo ritual entre o homem e a
natureza.” (9:402) Sexo é ligação direta com o sagrado que habita o
homem. Sexo também é a recompensa, a prenda imensa pelas lutas renhidas que o
tem de empreender para afastar-se da atração indiferenciadora do regaço
materno.
Ao
afastar-se do pólo ctônico, reino da grande-deusa-mãe, o homem tem de
conceber-se como identidade. Para isso, erige um heterocosmo próprio, pessoal,
secretado na imaginação, erguido a partir das extrapolações conceitualizantes
que comete. Um mundo artificial é criado. Composto de leis, de arte, de
religião, de filosofia, de ciência e de artefatos, este o mundo da cultura. Um
mundo marcado pela brutalidade masculina. Pela incompletude das possibilidades.
Condenado pela insatisfação vigente e pela injustiça prevalente. No entanto, é
um mundo onde há normas consensualizadas, há direitos vigentes, riqueza em
abundância, produtos em pletora. Pelo menos, para uma minoria, há beleza,
objetos de arte, vida afluente, medicina de qualidade, seguros para fazer face
aos eventos de vida infaustos. Para a maioria, há trabalho mal remunerado. Há
estudo e educação para grande parte. Saber, para alguns. Liberdade, para quase
todos.
A esperança é inconstante,
tremeluzente.
Este é o outro mundo, heterocosmo,
civilizador, criado pelo homem, para fugir da obscuridade pegajosa da mãe a
quem deve sua vida e que é sua insistente tentação de recaptura.
O adolescente propende a afastar-se de
sua família. Do contrário, permanece preso à indiferenciação pessoal, misturado
aos fortes atratores papai-mamãe-vovós-irmãos-tios.
Para fazer isso, o adolescente tem de
ser ingrato. Junta todo o saldo negativo da relação paterno-filial, denigre os
pais, denuncia suas falhas e insuficiências, desqualifica sua família e
empreende a metanóia.(1) Sai de casa com o legado dos tesouros
absorvidos e assimilados nos muitos quinze, vinte, vinte e cinco anos de
convívio familiar. Todo adolescente é um filho perdulário, pródigo, dissipador
do amor, da boa vontade e do patrimônio paternos. Vai para o mundo, vasto mundo,
com sua capanga mal cheia. O mundo habitualmente o trata de sua maneira típica:
com áspera indiferença e obtusa opacidade. O filho anda, transita, conhece,
“quebra a cara.
Mas, disso tudo, tira um resultado,
pois, como Melim-Meloso, verifica sua pequena potência, sua finitude:
Era sujeito a
morrer: por isso, queria antes dar uma vista no mundo, a achar a fôrma do seu
pé. (10:104)
Quando volta, já é outro, maior,
acrescido, transmentalizado. Saiu de casa um fedelho rebelde. Retorna homem
feito.(1) Ferido, suado, depurado de ilusões e bobagens. Experiência
não se herda nem se transmite. Adquire-se. Os pais, a família funcionam como
esteio de suprimento afetivo, emocional, existencial. Os pais propiciam a base
econômica da experiência. Suportam a dissipação de recursos. Sobrevivem à
rejeição e ao abandono. Estão cônscios de que fizeram aquilo que lhes pareceu o
melhor possível para o filho.
Para os pais, é doloroso descobrir que
os bons conselhos, as sábias predicações e todo o seu patrimônio experiencial-vivencial,
postos à disposição dos filhos, não têm quase nenhum valor, a partir do momento
em que eles fazem 14, 15 anos. Ser jovem é assumir como carma ter de ir sozinho, experimentar sozinho, “quebrar a cara” por
sua vez. O adolescente tem por maldição ter de ir lá ver qual’é?, medir por sua própria medida. Ele é seu único mestre e seu
único adepto. É claro que a turma
ajuda, faz onda, vai junto. Mas o processo de amadurecimento é interno,
pessoal, solitário, intransferível.
Por isso, é tão difícil para nós,
adultos, entrar em sintonia com o adolescente. Ele está em algum estágio
inapreensível de sua caminhada. Temos dificuldade de perceber e de avaliar. O
jovem precisa deixar a família. Como um filho pródigo.(1) Mas
precisa sentir que ela existe, está lá, a sua disposição, para quando quiser ou
precisar voltar. Quando volta, já é outro. Deve ser recebido com júbilo. Sem
perguntas. Amor é um sentimento incondicional. Por isso, é nobre, grandioso,
espiritual.
A sexualidade é o natural da condição humana. Escraviza-nos e se contém na armadura
das necessidades do corpo. Sexualidade é luta. Titãs conflagram-se dentro de
nós. Um deles atrai-nos para a gostosa refusão ctônica com a deusa-mãe-primeva.
“Amor? Só de mãe...” Convite à regressão, à indiferenciação, à úmida
desagregação/deliqüescência com a
mãe-natureza. Puro anseio de moleza.
O princípio masculino é outro titã que
nos impele a fugir, fobicamente, do colo materno. Ele nos impulsiona a buscar
as vastidões desassombradas das coisas do Mundo. Indica que há vida, mais e
melhor, nos espaços abertos, nesse vasto campo de caça e de captura do objeto
satisfator, no Mundo Externo.(7) Ele quer empenho, façanha, coragem,
desempenho, conquista. Macho-masculino-homem: abandonar o útero seguro, aprender
a transitar pelo precário e pelo transitório, constituir-se em plena tarefa.
Construir um outro mundo, um heterocosmo, a partir do desamparo que nos
constitui. Tudo o que está aí, de ruim e de bom, de belo e de grandioso, foi
erguido pela ação do princípio masculino. É bom termos orgulho disso.
Sobretudo, nesse momento, no Ocidente, onde o homem-macho está sob o ataque
denegridor de todos e de tudo. É hora de as mulheres, com seu poderoso
princípio feminino, darem uma contribuição até mais efetiva para amenizar as
durezas e as iniqüidades da vida.
O homem está cansado de enfrentar
sozinho as chuvas, as marcas, as lutas contra o rei e as discussões com Deus
(com sua licença, meu padinho Chico.)
(8)
Um pouco de inteligência, de saber
fazer, mais diligência, é necessário. O que o Homem quer e de que precisa (além
da prenda imensa dos carinhos teus, coisa, de resto, já obtida para o usufruto
comum) é de mais solidariedade na tarefa de viver. Chega de reclamar. Chega de
usufruir sem pagar. É hora de fazer, de se comprometer, de meter a mão na mesma
colher. O repto é esse: com o que a mulher, o feminino, pode contribuir para
melhorar essa sociedade injusta e excludente que os homens criaram?
· · · ·
Caminhante
não há caminho
se faz caminho
ao caminhar...
Os versos de Antônio Machado mostram
que o Homem é um ser em constante confecção. Ele não é substrato, dado posto,
jazigo, como pode ser a mulher. É um ser de transaventura. Mário-Euzinho.(10) Ser de travessia.
A sexualidade é o carma e a condenação do homem: o corpo sempre pede mais do que
obtém. Compelido a só pensar “naquilo”, a brusquidão é o seu sono; o estalido,
sua expressão; a inquietude, seu modo-de-estar. Estabanado, sua maldição é
continuar querendo...
Por sua vez, ela, a mulher, é tão cara:
tão difícil, tão querida, tão onerosa, tão rala!(6) O homem
conceitualiza. Fuça, inventa, descobre. “Bola” e investe. Já, já, per-verte.
Quem não tem cão, caça com rato. Não pode é experimentar, que gosta. Gostou,
acostuma-se. Acostumado, vira hábito, costume, até preferência. Você já comeu
tatu? Jacaré? Escargot? Bunda de tanajura?
O Homem descobre as “zil”
possibilidades da sexualidade. Elege suas preferências. Sexualidade é mexilhão
barbado. Puras per-versões. Cada um come o que gosta.(6) Refusão de
nossas doces quentes coisas ensopadas de turgor.
· · · ·
Vivemos numa luminosa sociedade em que
o privilégio da liberdade é usufruído
por todo cidadão. O Brasil é um país livre. O brasileiro desfruta de liberdade.
O jovem é cioso de sua liberdade. Liberdade é autarquia – capacidade de se
autoconduzir. Implica autonomia – cada um elege os caminhos que lhe parecem
mais convenientes. Liberdade é a grande conquista da Revolução Francesa.
Igualdade ainda é um anseio comunista. E fraternidade, bem... a fraternidade...
ainda permanece sob a égide de Caim.
A liberdade é curiosa. Liberdade é a
possibilidade de escolher compromisso. Compromisso é amarra, prisão, restrição
de liberdade. Pois é isso: liberdade é uma bolsa cheia de moedas com que me
apresento no mercado da vida, para escolher aquelas transações que mediatizam
aquilo de que preciso. É claro que faço bons negócios, empenho minha pecúnia e
obtenho satisfação. Portanto, a liberdade não é para ser arrogantemente ostentada.
É para ser empregada, segundo o meu alvedrio. Não há vida social sem contrato,
sem compromisso, sem consensual restrição de liberdade. Uhuuuuuuuuu! Ululante,
diria o Nelson.
Liberdade é poder dirigir um automóvel.
Liberdade é poder exercer a sexualidade.
Liberdade é poder oferecer-se no
mercado de trabalho.
Liberdade é ocupar espaço sem
prejudicar o outro.
Liberdade é aprender a saber o seu
direito e respeitar o direito do outro. De todos os outros. Milhões de outros.
Liberdade implica responsabilizar-se
por seus atos e por suas opções.(11)
Este, o difícil e duro jogo da vida
adulta: suas ações têm implicações e conseqüências. Ninguém tem o direito de
prejudicar outros. Nem você, meu belo jovem.
Liberdade é autoconduzir-se com responsabilidade.
Há normas, há mores, há costumes, há leis vigentes na sociedade em que você vive.
Obedeça à sinalização. Ela é sua garantia. Fiança de seu ulterior ato de
liberdade.
Nosso jovem tem acerbada consciência de
sua liberdade. Isso é bom. Precisamos ensiná-lo a assumir a responsabilidade
que lhe cabe no jogo social adulto em que se inicia.
Carro é coisa de vida adulta. Sexo é
brinquedo de adulto. Precaução, responsabilidade e caldo de galinha não fazem
mal a ninguém.
· · · ·
O jovem costuma ser trancado. Evasivo. Rebelde e evitativo. O
médico trabalha com demanda, queixa principal, pedido de ajuda. O paciente
apresenta-se à consulta aberto em ferida, com uma queixa dolorosa e um pedido
de alívio, uma solicitação de lenitivo e uma expectativa de encontrar ajuda
eficaz.(3)
A prática médica está lastreada na
biologia do paciente. Corpo que adoece, carcaça que encerra e pesa, a biologia
é a base da vida. Por meio de disfunções e de sintomas, o corpo exprime seus
achaques. A natureza adoece. O médico colhe a anamnese, procede ao exame,
instaura toda a propedêutica, dispõe de subsídios para estabelecer um
diagnóstico.
Se tudo acontece a partir da natureza
do corpo, mediante alterações fisiopatológicas e anatomopatológicas, estamos no
terreno tradicional da doença orgânica. Apanágio da medicina.
Se acaso a semiologia não encontra
substrato, pode-se expandir a pesquisa para o âmbito das queixas subjetivas do
paciente. Quase certo configurar um quadro psicopatológico, este sim, mais
afeito ao cotidiano de atuação do médico psiquiatra. Mal-estares convivenciais,
hábitos de vida viciosos, condutas autodeletérias, erros de julgamento,
defeitos de expressão e de comunicação, más escolhas de vida, tudo isso
configura um enorme campo gerador de inquietação, de angústia, de infelicidade,
de dor psíquica e de sofrimento. Este, o campo específico de atuação do
psicoterapeuta.
O médico lida com corpo, dor, sintoma,
achaque, ameaça à integridade da vida. Ouve, diagnostica e prescreve. Opera com
técnicas consensualmente validadas, com procedimentos consagrados pela clínica,
com medicamentos e com intervenções cirúrgicas. Recebe confidências e
intimidades. Deve utilizá-las a favor do diagnóstico e do tratamento.
O médico estabelece uma transação de
confiança com seu cliente. A partir do motivo da consulta, estrutura-se a
relação. O médico é alguém dotado de dispositivos hábeis em avaliar as causas
orgânicas subjacentes ao incômodo do paciente. Uma vez evidenciada a doença, o
médico é o forte condutor do processo terapêutico. O poderio de sua voz é
contrapartida necessária à responsabilidade que assume.
O médico procura ser empático com o
cliente em relação ao seu sofrimento e às suas peculiaridades. Feita sua
avaliação, pode decidir informar o paciente sobre a dinâmica de seus incômodos bem como fornecer subsídios
médicos atualizados sobre medidas psico-higiênicas, esclarecendo crendices,
contribuindo para dissolver a ignorância e os preconceitos. O médico não abre mão
de ser um instrutor de alta qualidade, no que se refere à saúde de seu
paciente. Ele é um verdadeiro agente psicopompo – condutor de alentos -, um
mentor que indica e direciona os passos futuros na vida do cliente. Informa,
esclarece, explica, clareia. Mostra os caminhos. Exige implicação e responsabilidade
por parte do paciente, a fim de atingir os objetos terapêuticos colimados.
Dispõe-se, facilmente, a formar uma aliança com seu cliente, visando a combater
a enfermidade.
O adolescente é trancado, reservado? O
médico está aí, apresenta-se na posição de receptividade. Oferece-se duas, três
vezes ao jovem. Se este não se abre, paciência, fica para a próxima.
O adolescente é rebelde, provocativo?
Um pouco de empatia, uma boa pitada de humor, acrescidos de uma certa
maneabilidade de “entrar na sua” – na
do jovem – costumam ser o bastante para construir uma relação suficiente para
que o médico possa realizar seu sério trabalho.
O adolescente é tímido, ressabiado? O
médico deve acolhê-lo com calor humano, facilitando sua expressão, interrogando-o
sobre questões óbvias de seu interesse.
O adolescente é sedutor, provocativo,
escrachado? O médico deve cingir-se à sua postura profissional, tolerar certo
grau de deboche e não ter pejo de corrigir a situação, chamar a atenção para
esta e aquela atitude excessiva do jovem.
O moço ou a moça está iniciando sua
vida sexual? O médico deve fornecer informações sobre as dificuldades do
relacionamento sexual heterocompartido.
O jovem consulente traz suas angústias
de desempenho sexual? Não consegue ter ereção com certa mulher muito querida?
“Broxou” ontem e hoje? Ejaculou no varal da cama? Não consegue penetrar? Teme
ser criticado pelo olho crítico da parceira?
Tudo isso são acidentes de trabalho,
acontecimentos possíveis na vida erótica do macho. Sem motivo para alarme.
Diferenças anatômicas entre os sexos
serão mostradas. Diferenças de fisiologia sexual serão explicadas. Sobretudo,
mostrar-se-á ao jovem a importância de se ir montando o dispositivo do
relacionamento amoroso, pouco a pouco, ao longo do tempo, mediante prática
repetida.
A moça traz sua angústia ante a
defloração? Receia a dor do coito? Fantasia que irá esvair-se em sangue? Teme
ser danificada pela poderosa verga do homem? Sabe usar métodos
anticoncepcionais práticos e eficazes?
Ambos os parceiros cuidam de sua saúde
física e sexual? Ambos têm consciência de que o delicioso exercício da
sexualidade é uma brincadeira de adultos e que, portanto, implica
responsabilidade pessoal no que se refere a intimidade, a doença sexualmente transmissível
e, sobretudo, a gravidez?
O jovem consulente vem ao médico com um
segredo escabroso? Se o segredo for revelado, o médico amortece a bola no peito
e bota no terreno: os seres humanos têm a grande incapacidade de nada
inventarem de novo que já não esteja na Bíblia. O médico partilha a
confidência, divide o peso do segredo e, quase certamente, poderá mostrar ao
paciente aspectos amenos, humanos, daquilo que ele, cliente, considera tão
insólito.
O jovem revela que acaba de cometer um
crime e pede ao médico que mantenha o fato em segredo? Este deve dar conta à
sua própria consciência e levar em consideração a lei vigente na sociedade. O
médico deve induzir o cliente a partilhar o delito com sua família e com a
autoridade competente.
O rapaz anuncia que irá praticar um
crime? Ou que irá suicidar-se e pede sigilo ao médico? Este tem de clarear a
situação com o jovem, durante a consulta. Logo a seguir, convocar a família, e
com ela estabelecer uma estratégia de contenção das ameaças do jovem, visando a
protegê-lo dos seus próprios demônios.
O médico tem uma posição pessoal
depurada nos longos anos de sua prática clínica. Professa ajudar o paciente,
aliviando-o de dores e de angústias sempre que possível. Visa a estimular o
cliente a vislumbrar uma senda, até então insuspeita, por onde ele possa levar
sua vida adiante. Antevê certos caminhos inadequados que devem ser evitados,
prevenindo o pior.
Acima de tudo, o médico amola,
diuturnamente, o bisturi da sua incisiva competência, mantendo sempre claro o
descortino do grau de sua potência – abdicando de arrogar-se onipotente. Ao
assim proceder, o médico sabe que está em plena prerrogativa do exercício da
clínica.(3) Clínica médica: esta nobre prática que permite ao homem
preparado, diferenciado, dotado de arete,
colocar-se ao alcance de seu semelhante e de seu diferente para ajudá-lo.
O dois – médico e paciente – com as
mãos na mesma colher. Espantando a ignorância e “sacaneando” a morte...
Referências bibliográficas
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Belo Horizonte. Inédito. 1983.
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psicológico da adolescência. Belo Horizonte: Boletim Círculo Psicanalítico
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7.
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9.
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10.
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11.
VAZ, Henrique Cláudio Lima. Antropologia
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