quinta-feira, 14 de março de 2013

PSICOTERAPIA BREVE


Parte 11

 

PSICOTERAPIA BREVE

 

 

         O cliente chega à consulta com suas queixas, seus sintomas variegados, exibe suas manhas, demonstra seu caráter, configurando um estilo pessoal. Relata suas angústias, confessa seus sofrimentos. E, com algum custo, revela suas demandas.

 

         Acolho-o bem. Coloco-o à vontade. Mostro-me bem desarmado perante ele. Se preciso, tranqüilizo-o. Ele abre o peito, engrena uma fala, profere um discurso, relata sua história. Eu, atento, calado. Presença viva diante de um doloroso depoimento.

 

         A certa altura do jogo, após cinco, sete, dez minutos, ele faz um lançamento, diz uma impropriedade, emite um preconceito, passa uma informação improcedente, erige um raciocínio que termina em falso impasse.

 

         O terapeuta entra com tudo. Mostra isso, exagera aquilo, informa melhor, faz uma pergunta paradoxal. Mexe. Espicaça. Instiga. Provoca.

 

         O paciente mostra-se surpreso. Esperava outra coisa: mão na cabeça, comiseração. Empatia com suas mágoas. Corroboração para suas razões empacadas. Esperava silêncio. Ou esperava o que já obtivera de outra feita, com um psicanalista.

 

-         Hum hum. Vamos ver. E daí? Bem... sim... que mais? O que você acha disso? Ficamos por aqui hoje...

 

O terapeuta supera a freqüente armadilha que o cliente propõe.

 

-         O que o senhor quer que eu fale?

 

Psicoterapeuta breve não quer nada, não quer ouvir nada especificamente. Acolhe o que vier, do jeito que vier. Sabe que o cliente tem obrigação de fornecer material clínico.

 

Vindo, então,  abundante material, o terapeuta nomeia, indica, mostra, esclarece, informa, confronta, amplia, flexibiliza aquilo que de si o paciente explicitou. Dá novo sentido ao relato, resignifica-o.

 

É de bom alvitre mostrar, de início, o lado ruim, escabroso, terrível. Exibir as inconseqüências. Preencher as falhas de raciocínio. Exagerar até o ridículo ou até ao absurdo as seqüências insinuadas. Neurose é pensar pouco e mal. Por medo dos afetos. Saúde psíquica permite pensar bem. Pensamento é ensaio de ação, é antecipação de desempenho. Portanto, primeiro, o terapeuta deve começar a cuidar da vertente esquizoparanóide. A esquizoidia é a mãe de toda neurose, porque embaraça as trocas relacionais entre as pessoas. Assim, depois, todo o tempo que sobrar é suficiente para descobrir a vertente positiva, boa, dadivosa, conveniente e vantajosa. Aí, desponta o novo como achado pessoal criado pelo cliente. Primeiro, o aperto, a cólica, a angústia. Depois, logo, logo, o alívio. E a solução possível achada, criada.

 

Se o terapeuta interage diretamente naquilo que o paciente traz nos primeiros minutos, cria-se uma reação de alta intensidade, em que trocas relacionais vividas  ocorrerão impreterivelmente. Soldam-se dois materiais. A intenção do paciente de se tratar funde-se com a intenção do terapeuta de trabalhar. Costuma dar uma boa liga, que permite trabalhar a quente sobre a problemática engessada.

 

O terapeuta parte do princípio de que aquilo que o cliente diz é verdade. Pronta, completa, acabada. Não há nada por trás disso. Não há desejo de enganar, não há mentira nem algo oculto por detrás da fachada. Tomar o dito do paciente como verdade simplifica as coisas e economiza meses de terapia.

 

Se o terapeuta leva a sério aquilo que é dito, ao pé da letra, pode operar com isso sem rebuços. Apanhado pelo rabo da palavra, resta ao cliente manter a fala, avançar sua história, ampliá-la e completá-la e, assim, estará corroborando aquela verdade. Ou... ou pode o paciente cair em contradição, perder-se procurando argumentos secundários que apoiem sua fala inicial. Ou... ou muda logo de assunto. Isso pode ser indício de que estivera mentindo. Não importa.

 

O paciente envereda para outro tema mais sério, mais pessoal e aí mete-se todo inteiro na armadilha da terapia, que é se pôr a falar de si próprio. Ou evolui para outro assunto mais leve, tolo, banal, dispersivo. A sessão torna-se improdutiva, coberta por uma cortina de fumaça, indicando que não haverá interação positiva.

 

De qualquer forma como o cliente se apresenta, já nos minutos iniciais da sessão, ele está sendo acolhido, ouvido, testado, processado e tratado. Isso permite cunhar uma primeira lei em psicoterapia breve:

 

Do jeito que o cliente vier, ele é tratado.

 

O psicoterapeuta breve é como uma ponta de lança de futebol que lida, trata e chuta a bola do jeito que ela vier. É permissível chutar para fora, desde que, de vez em quando, se marque gol.

 

A segunda lei da psicoterapia breve é:

 

Vale o vivido.

 

O que incomoda o paciente é sua vida. Existir neste mundo doido é que é o incômodo.

 

O difícil é se dar bem ao longo de toda a  existência.

 

 - Antes era assim e assado e eu me sentia bem. Agora, mudou algo na conjuntura, e eu me sinto mal, subjetivamente.

 

É a vida presente, tal como ela se dispõe para a pessoa, aquilo que a incomoda, angustia, patologiza. O presente é o campo de batalha onde se luta por uma definição mais razoável, onde se podem obter ganhos.

 

O passado tem pouco interesse em ser revolvido. Sua função é escoltar e instruir algo acerca dos antecedentes explícitos da problemática atual. Ganham-se anos de terapia com essa segunda lei.

 

Do presente, parte-se para a análise da conjuntura existencial, buscando-se algo pertinente a vivências históricas anteriores, com o objetivo de configurar uma compreensão para a conflitiva do cliente.

 

O que se objetiva é evoluir de imediato para a terceira lei da psicoterapia breve.

 

- Logo, logo adiante, você vai abrir-se para o futuro e deparar com novas possibilidades comportamentais mais ricas emocionalmente que aquelas anteriores, que terminam sempre em impasses.

 

O psicoterapeuta capaz de empreender um tratamento abreviado tem de ter sólida formação psicoterápica. O melhor sistema de treinamento ainda é o psicanalítico. É necessário ter longos anos de prática e experiências diversificadas na clínica psi. O terapeuta deve ser sagaz o bastante para discernir, com precisão e rapidez, aquele material trazido pelo paciente, que é mobilizável e tratável, em contraponto ao que é biológico, estrutural, cristalizado, inamovível.

 

Psicoterapia consiste em devolver, processado ao paciente, aquilo  que nos traz, para que ele, por sua vez, possa ampliar e processar seus patrimônios vivenciais. Assim, expandirá o alcance operacional de seu próprio eu, ao mesmo tempo em que reforça a convicção de integração e de existência de seu “Eu”. Passa a sentir-se real, a ser ele mesmo, metido na interrelação com os outros e os objetos, numa transação interessante e enriquecedora. Sujeita a si mesmo, a pessoa pode refugiar-se ou recolher-se para dentro de si, sempre que tem vontade.

 

Em terapia breve, vale o preceito sistêmico. Num dado sistema – a mente do cliente -, qualquer pequena mudança acarretada nos elementos que o compõem causa mudança inexorável no sistema.

 

Assim é que uma simples alteração, por pequena que seja, abre o sistema, dinamiza-o e o torna permeável à possibilidade de novas mudanças. Dessa maneira, sai-se do impasse e do ponto morto. A patologia mental é privação de liberdade do sujeito.

 

O paciente adoece na medida em que os fluxos de sua vida vão, progressivamente, estagnando-se. Configurações existenciais fechadas aprisionam a pessoa num horizonte vivencial cada vez mais repetido e estreito. A satisfação e o prazer de existir provêm da inteligente combinação de se experienciar novidade, excitação, liberdade.

 

A neurose, como protótipo da patologia puramente mental, é a incapacidade do sujeito de auferir privilégios acerca da própria vida. Neurose é impossibilidade de usufruir prazer no existir. Neurose é o embatumamento de vivências e o empacamento da transitividade da vida. O cliente, quando nos procura, já lançou mão de todos os seus recursos para enfrentar as exigências de sua conjuntura de vida. E já despendeu grande parte de sua munição, obtendo pouco resultado em abater seus fantasmas esquizoparanóides. Além disso, gastou toda a sua inteligência emocional, a ponto de não conseguir mais levar adiante quase nenhuma situação de sua vida.

 

Um sujeito neurótico, embatumado, empacado é que procura nossos serviços profissionais. Ou então é o portador de patologia pior: psicossomática, psicótica, psicopática, borderline.

 

Assim, qualquer abertura que se consegue na carapaça doentia é vital para ampliar as possibilidades de recuperação do cliente. Qualquer tema que for sacudido, clarificado, confrontado e amplificado, será bem vindo. Todo afeto que for mobilizado no paciente, a partir da relação com o terapeuta, será revitalizante. Toda relação interpessoal que for estabelecida entre a díade cliente-terapeuta, sobretudo se for arestosa, resistente, conflituosa, é proveitosa, pois acarretará uma ligação re-humanizante.

 

O terapeuta capaz de empreender um procedimento breve não abre mão da prerrogativa de ser a autoridade que conduz o processo. Assume seu papel de especialista em assuntos humanos, sem pejo. Sabe que a neurose tem a sedutora característica de usar mil tramóias para empacar o processo terapêutico, alongando-o por anos.

 

Entrar de forma enérgica, incisiva, naquela parte mole da aparentemente blindada problemática do paciente é tática feliz para fazer eventrar, de vez, as suas entranhas estagnadas.

 

O terapeuta breve trabalha com o inconsciente. Sabe, desde Freud, que o psiquismo funciona segundo dois registros bem destacados e, nem por isso, menos imbricados. Só que, no caso da terapia breve, o terapeuta não fica esperando o inconsciente pulsar a seu bel-prazer. Convoca-o ao centro da cena terapêutica, como um médium faz, quando invoca a entidade espiritual. Na terapia breve, o inconsciente não é algo indefinido, etéreo e caprichoso, mas é um componente objetivável, perfeitamente configurável, disponível desde sempre como o aspecto complementar do que foi dito. Inconsciente é o inverso do afirmado. É simplesmente o contraposto. Ou o não dito. Ou o que foi insinuado apenas – ou então aquilo que meramente acompanha a vivência, segundo o senso comum.

 

Em terapia breve, o inconsciente não é tratado como um ser divino, um deus ex machina ou uma obscura dimensão onipotente. Não. A essa altura de nossa prática e de nossos conhecimentos, podemos afirmar que o inconsciente está escarrado, sempre. Ele está permanentemente aí, dado posto, embora camuflado, implícito ou representado por meio de uma alegoria ou um enigma.

 

O que importa é que não há surpresa proveniente do inconsciente de ninguém.

 

Desde Shakespeare, o inconsciente do homem moderno está descrito, funcionante, e é, sempre, previsível.

 

Freud deu-lhe estatuto metapsicológico muito adequado. Melanie Klein  deu-lhe ampla dimensão fantasmática.

 

Lacan o descreveu como um código de escrita, uma forma de dizer.

 

Winnicott o percebeu presente, em curso, ao longo do processo do brincar e do existir.

 

Lidamos com o inconsciente como aquilo que é de domínio público na cultura e que está ingenuamente omitido no discurso do paciente. Na psicoterapia objetivada, é fundamental que o terapeuta disponha da sagacidade do diretor de cena, convocando os elementos e os depoimentos à lucidez do cenário terapêutico.

 

Assim, o terapeuta torna ágeis os elementos inconscientes capazes de ilustrar o caso, ampliando os efeitos de informação. Dessa forma, instrui-se o processo terapêutico favorável ao paciente.

 

O mandato de conduta que inspira o terapeuta objetivo é o de utilizar todos os recursos válidos e empenhar todo o seu conhecimento a serviço do cliente. O terapeuta é um prestador de serviços especializado, que se deixa usar como pessoa, numa interação de alta intensidade, para causar efeito e afetar a subjetividade do cliente. O terapeuta empresta sua cabeça para realizar operações de alta complexidade que a mente do cliente nem de longe suspeita existirem. O que se objetiva é obter uma decisão rápida e valiosa, logo implemenada por atitudes consistentes, que suplantem os impasses. Tal como um general em campo de batalha.

 

O que mantém o terapeuta atuante no campo, por anos e décadas, é a satisfação de saber que seu trabalho – ainda tão pouco conhecido, quase sempre mal remunerado – é da mais alta relevância.

 

Em terapia breve, não se trabalha com cura. Curam-se gripe e infecção. Em medicina psíquica, cura-se apenas questão aguda e monotemática.

 

Em medicina psíquica bem como em medicina interna (clínica médica), a maior parte da patologia deriva de interações policausais que operam mediante complexos imbricamentos, evoluindo ao longo de um tempo crônico. A melhor parte da patologia humana é existencial, evolve ao longo da vida. É preciso amortecer os impactos da patologia, diminuir sua virulência e abater sua malignidade. É necessário aprender a conviver com as doenças crônicas. A biologia e a psique do ser humano são falíveis.

 

                      Meu samba é autópsia

          De amores passados

                   O atestado de óbito da vida insana

                   E eis o meu laudo

                   Perito em paixão constatou:

                   Falha humana. * *

 

 

 

 

Diante dessa insanável precariedade, o terapeuta objetivo contrapõe a grandiosidade do pequeno milagre quase sempre disponível.

 

Em qualquer idade, em qualquer  circunstância e apesar da pior patologia, o ser humano, desde que cuidado, sempre pode melhorar.

 

Melhoras psíquicas é o que se têm como escopo. E sempre são obtidas. Melhorar aquilo que é possível. Crescer. Ousar. Fazer. Criar. Cometer. Vivenciar. Inovar. Sair do impasse, rompendo o formato. Indo adiante. Deixando para trás as dificuldades e os empecilhos, muita coisa se resolve. Esta a “lei Juscelino Kubistchek”, a 4ª lei da terapia breve.

 

O ser humano é um animal em prolepse, voltado para a frente de seus olhos, olhando o futuro, os pés avançando, o torso insinuando-se adiante. Enfim, pra frente é que se anda.

 

O passado foi vivido, granjeou um saldo vivencial que expressa a experiência e a competência do sujeito. Não importa o resíduo de coisas “não sidas”, não vividas, lá atrás. Isso é irresgatável. Ninguém oferecerá ressarcimentos. A única possibilidade é o sujeito sair de seu comodismo, arrancar-se de sua timidez, desentranhar-se de si mesmo e, correndo todos os (pequenos) riscos de quebrar a cara, exercer, existir, cometer, no futuro imediato.

 

Praticar o esporte predileto do neurótico, que é se queixar e atribuir ao outro sua impossibilidade, é muito pouco eficaz, já que essa atitude não comove ninguém suficientemente.

 

Aquilo que não foi vivido, desfrutado, incorporado pelo sujeito, ao longo de seu trajeto existencial, permanece como um patrimônio de “a-menos”, cujo montante pode acarretar déficit na avaliação que ele faz da própria vida.

 

Vau da vida é a alegria. Quem tem déficit de alegrias, terá pletora  de desgostos. Decepções e vida pobre são fracos antídotos e insuficientes contensores da  dimensão pulsional disruptiva que todos abrigamos. Pulsão de morte, objeto mau, demônio, Éris, Kirttimukha, Caim, iauretê, facinorosidade, qualquer nome que escolhamos não é suficientemente abrangente para expressar a tarefa incessante que temos, ao viver, para manter sob controle o monstro medonho que nos habita. Mas é preciso aprender a retirar forças dele para energizar aspectos e vivências positivas de vida.

 

Vau da vida é coragem. Coragem é energia empregada para desfechar o poderio do instrumento que possuímos – a espada – para cortar e desfazer os (falsos) impasses com os quais a neurose nos aprisiona.

 

Ser terapeuta breve é ser capaz de manter a alegria e o bom humor ao longo das horas de trabalho. É ter coragem de decepar sem dó o cipoal em que se mete, gozosamente, o cliente. O que se quer é resgatá-lo, todo inteiro, na plenitude de sua pequenez e na amplidão de sua insuficiência.

 

Somente a partir daí, da honesta e humilde verificação de que é precário, o neurótico readquire humanidade. E é da relação com o outro, mãe devotada suficientemente boa – terapeuta empenhado devidamente competente – que o indivíduo pelado, desneurotificado, pode vir a ter chances de retomar sua evolução pessoal e voltar a percorrer seu desenvolvimento afetivo na condição de ser humano. Mãe e terapeuta são figuras, mais que isso, são funções fiadoras e zelosas imprescindíveis para a evolução psíquica da pessoa.

 

Em terapia breve, sabe-se despudoradamente que o que cura, o que acresce e melhora o outro é a relação humana.

 

Por isso, o terapeuta breve conhece dezenas de teorias, domina dúzias de técnicas e, certamente, já abandonou todas. Forjou sua técnica pessoal, própria, que o faz operar com o mínimo de desgaste e o máximo de efeito terapêutico, beneficiando seu felizardo cliente. De há muito abandonou práticas ortodoxas que fazem apologia do método, para adotar uma postura de pura epistemologia clínica. Vale o caso, vale o resultado positivo, vale a valiosa relação entre custo e benefício, vale sobretudo a eficácia empírica de sua prática. Sabe que a clínica se faz de casuística, de casos particulares, inusitados. Não há generalidades ou ciência da clínica. O que há é excelência, qualidade, superioridade de atuação na clínica psíquica. Vale o que tem valor. Clínica é arte em exercício.

 

Aprender a viver é a terapia que interessa. A terapia breve objetiva propiciar ao cliente uma nova visão acerca de si mesmo. Em decorrência disso, baseado na ampliação de conhecimentos sobre valores relevantes de sua vida, o cliente tem oportunidade de fazer novas escolhas, estabelecendo novas relações de objeto. Dessa forma, enriquece-se, com ampliação de repertório de experiências e de vivências pessoais.

 

Numa terapia breve, há algumas etapas que devem ser observadas:

 

         · acolhimento do cliente;

         · elaboração do diagnóstico;

         · proposta de tratamento;

         · planificação do tratamento;

         · focalização em problemáticas permeáveis;

         · flexibilização de atitudes e de objetivos;
        
· manutenção da iniciativa pessoal do terapeuta;

         · intervenções:

                           -   esclarecimentos;

          -   assinalamentos;

                   -   ampliações;

                        -   confrontações;

                   -   interpretações;

                   -   elaboração por parte do cliente;

                   -   tomada de atitude;

                   -   mudança de postura;

                   -   resolução de problemática;

                   -   surgimento de outra questão.

 

É o paciente quem autoriza a deslanchar a terapia. Certos pacientes têm especial talento terapêutico para melhorar. Outros nem tanto. Alguns não toleram melhorar.

 

Com suas atitudes e com o tipo de material trazido, o paciente nos esclarece o grau de envolvimento psicoterápico que suporta ou que quer. É comum o paciente se desapartar do terapeuta, assim que recebe material demais para processar. A maioria dos clientes não recebe dez por cento da capacidade operativa do psicoterapeuta. Este tem por norma não forçar. Também não usa dubiedade, meias-palavras, eufemismos ou ambigüidades.

 

O terapeuta objetivo, capaz de operar terapia breve, é um virtuose na profissão, que se manteve curioso e inovador. Estudioso da literatura especializada, descobriu que a maior fonte de ensinamentos sobre o ser humano e a sua natureza específica provém antes da história, dos conhecimentos da tradição, esotéricos ou não, e, sobretudo, do fruto da imaginação de mentes poderosas, que são os literatos. Na praça onde confluem esses tributários que se entremesclam com as notícias da mídia de hoje, com as vivências pessoais confrontadas com aquilo com que se trabalha cotidianamente na clínica, forja-se uma nova prática, clínica e eficaz, que surge como depoimento de verdade dotada de boa qualidade.

 

Psicoterapia breve, portanto, é o exercício da arte do terapeuta em curso.



**  “Falha humana”. CD Aldir Blanc – Maurício Tapajós, 1994.
 

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