Parte 8
A CONSTELAÇÃO BORDERLINE
A condição borderline de sujeito psíquico se impõe,
hoje, como uma realidade clínica que possui estruturação específica. O
poliverso que essa condição abrange engloba um vasto contingente de sujeitos que
são bem menos perturbados que os psicóticos, não apresentando, porém, as
deformações típicas das personalidades psicopáticas. O termo borderline vem granjeando autonomia para
designar uma constelação psíquica que tem característica, configuração e identidade
próprias.
O invidíduo que possui estruturação
psíquica borderline é alguém que teve
um primeiro ano de vida razoavelmente equacionado. Fracassou ao longo do
segundo, na etapa de saída da dependência materna para explorar o mundo.
Enquanto criança dependente, obteve o aconchego da mãe – função materna. No
momento em que ensaiava a busca do mundo – engatinhar, afastar-se da mãe,
introjetar, incorporar, internalizar as coisas todas descobertas pela sua
curiosidade no mundo externo – foi-lhe retirado o apoio emocional da mãe, que
não suportou a efetivação da experiência. Submetido assim a um tipo específico
de frustração excessiva – privação da completude da experiência de
auto-sustentação –, reforçou a tendência à refusão regressiva das imagos do self
com as imagos parentais.
A criança portadora de personalidade borderline traz um déficit vivencial
decorrente da falta de sustentação emotiva, que a priva daquelas experiências
todas em que se dá o acoplamento da pulsão com os objetos da pulsão. Instaura-se
assim um sujeito psíquico depletado de confiança básica em si mesmo. Isso afeta
a constituição da auto-estima do pequeno sujeito, atravessado por intrusões
provenientes do campo do Outro e
coarctado em suas livres disponibilidades existenciais num momento crucial de
seu desenvolvimento psíquico. Sabe-se que o impedimento do ser pulsional em
investir, em explorar todas as suas livres disponibilidades e delas usufruir é
um dos mais poderosos fatores de manutenção de sua precariedade e uma das
condições que mais são capazes de enfurecer a criança.
Podemos começar a citar o caleidoscópio
típico do portador de estrutura psíquica borderline,
dizendo que são indivíduos sujeitos a acessos de ira – verdadeiros ataques de
fúria ou de mau gênio – em inadequação ao estímulo desencadeante. Esses raptus furiosos se dão de forma
inesperada, intempestivamene e têm por alvo, habitualmente, pessoas do convívio
mais íntimo – pais, irmãos, familiares, amigos, parceiros amorosos.
Desarmonias na conduta são outro
sintoma sempre presente. O indivíduo que apresenta estruturação psíquica borderline mantém condutas adequadas – e
até sofisticadas – num montante maior ou menor de situações, mas escorrega
fragorosamente em certas situações mais desestruturadas, mais simples ou específicas
para o caso. Outras vezes, tal desarmonia se manifesta sob a forma de
imprevisibilidade de conduta, como se o sujeito estivesse comportando-se sob a
égide do caos.
A atuação tem um papel muito importante
nesses casos, na medida em que a estruturação borderline se louva, exatamente, em um déficit de capacidade
expressiva na porção distal do aparelho psíquico. O acúmulo de tensões
energéticas, de conteúdos pulsionais-representacionais transformadas em signos
que são postos em pauta num jogo explícito, articulado articulado de forma
cronicamente deficitária, muitas vezes
explode em curto-circuito expressivo, sob a forma de acting-out. A atuação, a um só tempo, desempenha várias funções:
alivia o excedente de tensão interna no aparelho psíquico, impedindo sua maior
desorganização; marca a presença do
sujeito, mesmo que de forma abrupta, intrusiva e eficaz; exerce um marco de
auto-afirmação do desejo do sujeito, embora de forma não muito hábil; faz
efeito no mundo, obrigando o entorno a levar em conta o indivíduo – ainda que
para se lhe opor e com ele se
confrontar; expressa, por meio de ato, aquilo – conteúdos
emotivo-vivenciais complexos – que o dispositivo lingüístico simbólico da
pessoa ainda não tem condições de expressar verbalmente. Mediante atuação,
suplica um pedido desesperado, inconsciente, de ajuda, pedido este que, sendo
acolhido e atendido por quem de direito – os pais, a sociedade, o terapeuta –,
serve como alerta para resgatar o paciente borderline
da solidão.
O indivíduo portador de personalidade borderline está sujeito a manifestações
reiteradas de instabilidade afetiva, oscilando brusca e maciçamente entre o
amor e o ódio, entre a ação e a indiferença. Da efusão mais entusiástica, passa
à mais negra depressão, em questão de pouco tempo. Faz pedidos comoventes de
apoio e de amor ao objeto amoroso ao qual está apegado e, de repente,
abandona-o cruelmente. Confessa-se dependente e carente do outro para, pouco
depois, maltratá-lo violentamente.
O
fronteiriço vive pedindo
– melhor – exigindo apoio, afeto, amor, suprimentos narcísicos
constantes e contínuos, como que mostrando que só assim consegue manter seu
funcionamento psíquico. Sem eles, seu psiquismo se desorganiza, regredindo aos
medos típicos do processo primário do funcionamento psíquico. Emergem então
fantasias arcaicas, psicóticas. Surge o temor à dependência do objeto, cuja
confiança e constância lhe faltaram na etapa de separação-individualização
constituiva do ser. Afloram o temor à solidão e seu corolário, a incapacidade
de ficar só, em presença de si mesmo.
A tendência a alguma forma de adicção –
álcool, fármaco, droga, trabalho, sexo, comida, esporte, crença ou outros –
traduz a busca desenfreada de um “algo mais” que lhe dê completude e sossego.
Lembre-se aqui a música de Cazuza:
Todo amor que
houver nesta vida
E algum trocado para dar garantia
E algum veneno antimonotonia
Alterações fugazes de identidade, com
desvanecimento da consciência e absorção rápida de modelos identificatórios a
modo de um Zehlig, são uma constante
na personalidade borderline.
Tendência ao descompromisso entre o
objetivo e o resultado, entre opções e escolhas reiteradamente antieconômicas,
propensão a correr riscos excessivos ou desnecessários, acompanhados de
atitudes autolesivas, são outras características clínicas.
O indivíduo portador de estruturação
psíquica borderline estabelece
relações interpessoais de natureza tempestuosa, levadas aos extremos
esganiçados da paixão e da ruptura – relações tumultuadas, sempre em
situação-limite, no fio da navalha –que jamais se rompem.
Em trabalho de 1987, Borderline – formas não edipianas de
constituição do sujeito psíquico, assinalamos as seguintes características
clínicas presentes nesse tipo de personalidade.
1. O cliente borderline
aporta uma verbalização abundante, fluente, rica, em terapia, que,
freqüentemente, engana o terapeuta, tornando-se, com o passar do tempo, um
material indefinido e desacorçoante.
2. Diante da dor psíquica, da angústia, do medo, da
vivência do vazio interior, o paciente borderline
muda de tema, entorna pelas beiradas ou simplesmente muda de registro.
3. É pouco capaz de se empenhar numa tarefa com
persistência e acuidade. Desiste do esforço, circula em torno daquilo que é
preciso fazer. Desconhece o goût de
l’effort.
4. Tende a achacar o outro, do qual depende, desvalorizando
os aportes narcísicos outorgados, como forma de camuflar suas necessidades de
dependência.
5. É hábil em levar o outro a lhe propiciar aquilo de que –
imperiosamente – precisa, sem “passar recibo” e sem dar nada em troca. Recebe,
como quem faz favor e nada deve.
6. Possui vulnerabilidade específica ou hipersensibilidade
diante dos estímulos internos e externos, que se manifesta como o sentimento de
estar sempre sendo sangrado psiquicamente em seus contatos com o mundo e as
pessoas.
7. Vive na expectativa de recuperação de um lugar – Ur –
originário, livre da dor: lugar utópico, onde estaria a salvo das agruras
desgastantes da vida cotidiana. Anseia profundamente restaurar a vivência de
completude oceânica de que gozou num dia pretérito.
8. O bordejo da vivência de solidão aciona os engramas que
rememoram o vazio interior, ameaçando o paciente borderline com a falta de sentido de sua existência.
9. A sua característica mais notável é o emprego de um tipo
específico de cisão egóica. Trata-se de uma cisão múltipla do ego,
estabelecendo estados egóicos parcializados, às vezes até incompatíveis, que se
alternam na consciência e na conduta do sujeito, sem este jamais se dar conta
das incongruências, incompatibilidades e incoerências, não chegando a se
articular em conflito psíquico. Há um desenrolar dramático de estados egóicos
que se alternam no campo psíquico e que se sucede numa coexistência pacífica e
não produtiva. A personalidade desse indivíduo assemelha-se a uma peça de teatro em que uma dúzia de atores
coadjuvantes exercem seu desempenho à espera do ator principal – Godot – que
venha a dar coalizão e sentido àquilo tudo. Exatamente aí está o ponto, a
falha: no portador de personalidade borderline,
não há esse ator principal que sustenta a trama, já que carece da função nobre,
pontífice, dialética e abstrata do ego.
Trata-se da não-confecção de um ego que se habilite a operar a falta da
coisa - a negatividade –, tornando-a
positividade presentificada, base da constituição da dimensão simbólica. Um ego
que não tolera a dor psíquica – o vazio, a separação, a ausência, a castração –
não articula as contradições operantes do conflito. A pressão dessa dor impõe o
desenrolar de soluções de compromissos, capacitando o ego a lidar com os pontos
de contato, os encaixes disponíveis e a
se pautar pelo prosaico exercício do possível. Dessa articulação provém a
sensação vasqueira que dá sentido ao ato e que satisfaz a pulsão e realiza o
desejo. Resulta daí a intromissão do
sujeito na dimensão temporal futura – dimensão em que a seta da
intencionalidade do sujeito aponta para o bom norte pessoal.
10. O borderline (?)
é incapaz de sintetizar introjeções e projeções positivas e negativas, o que
acarreta um defeito de síntese entre imagens contraditórias do self e do objeto. Constitui uma
personalidade que funciona numa estável instabilidade, a cada momento parecendo
desmoronar-se, dissolver-se ou desintegrar-se, mas - por algum insondável milagre – persevera em continuar
existindo, como sempre.
11. O indivíduo portador de estruturação psíquica borderline não consegue neutralizar as
cargas energéticas psíquicas – deslibidinizando-as e desagressivizando-as – de
tal forma que, por um lado, vivencia montantes brutais de energia em descarga
atuada. Por outro, suas funções egóicas padecem cronicamente de uma fraqueza
que praticamente preserva as funções autônomas do ego – percepção, memória,
motilidade, raciocínio e juízo -, mas prejudicam as funções cognitivas, uma vez
que ele não aprende com a experiência e não se louva na sabedoria. Dessa
maneira, condena o ego a exercer funções defensivas de baixo dispêndio
energético – a cisão múltipla do ego sobretudo. Também recorre à excessiva
utilização de mecanismos de operação psíquicos, tais como a negação, a recusa,
a idealização, a anulação, entre outros.
Sem energia psíquica neutralizada, o ego fica incapacitado
de acionar defesas mais nobres e eficazes, tais como a racionalização, a
repressão, o recalque e mesmo a sublimação, uma vez que esses mecanismos de
operação psíquicos implicam o dispêndio de contracatexias poderosas e estáveis.
Assim, o ego desse indivíduo é compelido a operar em umbrais mais baixos,
pré-conflituais, pouco diferenciados.
12. Falta à personalidade borderline o instrumento de corte e recorte do psíquico
indiferenciado a que, em teoria psicanalítica, chamamos de castração. É ela, a
castração – vivência de interdição, de proibição, de delonga, apanágio do não, véspera do talvez e do sim –, que
escava a geografia do psíquico, criando canais, circuitos, assinalamentos que
facilitam aos fluxos energético-semióticos escoarem pelos meandros do psíquico.
A castração coloca limites ao desejo do sujeito, ao mesmo tempo em que indica os caminhos e os trabalhos que esse
desejo deve fazer – acoplar-se aos sinais, aos objetos, produzindo algo no
campo psíquico. Chama-se a isso psiquização.
A castração instaura a impossibilidade, abatendo a pretensão
de onipotência narcísica do sujeito. Estabelece a espera do momento azado. Traz
em seu bojo a sinalização do possível, do permissível e do tempestivo: o sim.
E, com isso, permite o acoplamento do desejo, no momento tempestivo, com o
objeto disponível, resultando na vantajosa experiência de realização do desejo.
Sabe-se que toda função-mãe – a própria, o entorno, a sociedade, a civilização
– é tudo aquilo capaz de despertar, estimular, complementar e dar por
concluídas as operações egóicas que estão inscritas como possibilidades
vivenciadas do sujeito. Só assim este se constitui como sujeito de pleno
direito de exercício de seu ser. A castração é para ser exercida
cuidadosamente, cirurgicamente, para acarretar apenas a frustração ótima que
abate a divina onipotência pulsional infantil e a transmuta em exercício pleno
de convívio humano.
A castração instaura o não
– “há um outro mais poderoso que o meu desejo”. Reforça o sim e insinua o talvez.
Estabelece o antes, o agora e o depois. Permite que surja a contradição: a mão que afaga é a mesma
que apedreja. E, com isso, o conflito. O aparelho psíquico é uma máquina
especializada em lidar com o conflito. Articula seus componentes disparatados,
aposita-os naqueles pontos de contato e de encaixe e aprende, laboriosamente, a
extrair do conflito soluções ou superações – Aufheben – e criações. Dentro do possível. Dialeticamente. Criativa
e inovadoramente.
A castração permite a emergência do paradoxo. Viver é lidar
o tempo todo com situações e questões paradoxais. É superar impasses, deslindar
nós, ultrapassar barreiras e empecilhos.
13. Sem recalques e repressões, o psiquismo não se
diferencia suficientemente em instâncias que consigam suportar pressões. Diante
das pressões internas ou externas, o psiquismo do borderline se inunda, indiferencia-se e paralisa. Entra em tilt.
14. O psiquismo desse indivíduo está sujeito a sofrer pane
ou a reagir com pânico. Freqüentemente, apresenta sinais e sintomas de
despersonalização.
15. O portador de personalidade borderline desenvolve uma aprendizagem baseada em unidade de
informação, no varejo. Não é capaz de acumular conhecimentos numa seqüência que
permita a realização do processo de aprendizagem pessoal e intransferível, que
se torna o grande patrimônio vivencial-experiencial-cultural do sujeito. O
indivíduo borderline repete n vezes a mesma experiência e nem se
incomoda com isso, como o neurótico. A cada momento, é assaltado pela
emergência da pulsão ou do acontecimento, sem qualquer coxim amortizatório e
sem qualquer grade de referência onde introduzi-los para processamento. Pulsão
e acontecimento são tratados de primeira, grosseira e ineficazmente. O portador
de personalidade borderline chuta de
primeira, de qualquer jeito, as insurgências de sua vida.
16. Sob pressão, esse indivíduo reage catastroficamente,
não arrostando a exigência ou o perigo, mas regredindo rapidamente à indefensão
total. Pula no colo do primeiro que
passa.
É possível acrescentar ainda outras características à
personalidade borderline.
A cada semana, o cliente borderline nos relata uma grande descoberta que faz sobre sua
conflitiva: teve um sonho espetacular, que nos irá contar, mas a sessão termina
sem termos trabalhado direito o sonho, tamanho é o afluxo do material aportado.
Descobriu que o que lhe faz mal é o açúcar ou a carne. Começou a fazer
ginástica. Foi a um pai-de-santo formidável, que lhe disse coisas
surpreendentes – que já sabíamos. Descobriu que está com diabetes ou trocou de
emprego, de mulher, de carro, de profissão, de clínico ou de religião. Pretende
realizar um projeto que será sua redenção. Ou conheceu alguém que irá
resgatá-lo de toda a sua infelicidade. Fala em mudar de linha de análise. Toda
semana, há algo absolutamente maravilhoso, fantástico e infalível, que vai
resolver – bom, bonito, gostoso e barato – suas agruras. Cada salvador
descoberto e eleito passa por uma rígida estrutura seqüencial: é revelado,
publicado. Nele são depositadas a problemática e as esperanças de redenção.
Suas recomendações são seguidas segundo a conveniência parcimoniosa do paciente
borderline. Os resultados
terapêuticos iniciais são “maravilhosos” durante uma semana. Em seguida, vem a
decepção amarga. O processo termina com o denegrecimento do “salvador”.
Implacavelmente.
O portador de personalidade borderline freqüentemente apresenta fácies sugestiva, um jeitão de
“maior abandonado”, que se oferece aos cuidados de quem queira adotá-lo. Seu
psiquismo caracteriza-se ainda pela forte presença de desorganizadores egóicos.
O primeiro deles pode ser referido à vivência presuntiva de
um “negror interno” proveniente do fato de o Isso não ter sido amortecido – nem esvaziado – em seus fluxos
pulsionais, por boas e completas experiências de satisfação pulsional. A falta
de confiança em si, aliada à falta de confiança no outro – humano –, determina
a ameaça da solidão. Bordeja um tipo de pensamento dotado com as
características do modo processo primário de funcionamento psíquico.
O paciente borderline
apresenta volatilidade no trato dos temas que traz à terapia. Não mantém nenhum
compromisso com aquilo que fala. A enfática e enfunada afirmação de agora – que
desmente frontalmente aquilo que dissera ontem ou anteontem - não é percebida
como algo incongruente, incompatível, inadequado ou contraditório.
Possui um pervasivo sentimento de vulnerabilidade que o
torna hipersensível às vicissitudes corriqueiras do cotidiano.
Carreia uma intensificação patológica dos processos de
cisão egóica responsável pelo desdobramento de estados egóicos parcializados. O
ego não atinge funções mais nobres, como as de ligação, articulação, abstração,
composição e adaptação.
Funciona em constante estável
instabilidade, como se estivesse prestes a mergulhar na desintegração
psíquica.
Toda negatividade – frustração, privação, ausência,
castração – de contato com o objeto é ressentida concretamente como tal, não
almejando atingir a etapa de simbolização, na qual a ausência de contato com a
coisa em si se torna positividade – sinal transformado em signo que se
transmuta em símbolo. Este significando
e nomeando a coisa ausente. Substituindo-a.
O sujeito borderline
se estrutura aquém da temática edipiana – em que há uma relação de amor, de
ódio, rivalidade, antagonismo, preferência e expectativa de ser o escolhido
pelo par parental. Geralmente, age como se sua vida fosse resolver-se num lance
de dados.
Na relação terapêutica, o fronteiriço deixa o analista freqüentemente desacorçoado, quando
não manietado ou impotente. Por vezes, é hábil em despertar uma furiosa
contratransferência agressiva.
Outras características clínicas estão presentes com
freqüência no indivíduo portador de personalidade borderline.
Surtos de ansiedade intensa, que, às vezes, atingem os
níveis de síndrome de pânico, são comuns. Conduta impulsiva. Atitudes “especiais”,
bizarras. Distúrbios de linguagem. Resistência à aprendizagem seriada escolar.
Ocasionais fantasias delirantes. Alternâncias imprevisíveis de atitudes.
Volatilidade de responsabilidade. Impressão genérica de vida caótica que, no
entanto, persiste, dentro de certo nível de controle – “estável instabilidade”.
Descrição de ambiente familiar com sérios transtornos. Possibilidade de crises
passageiras de micropsicose de natureza esquizofrênica, mas forte resistência à
instalação de psicose crônica. Distúrbios psíquicos nítidos, relatados ao longo
de décadas de vida, evoluindo aparentemente sem maturação e melhora.
Transferência candente, intensa, rápida, apresentando etapas autísticas,
simbióticas, esquizóides, gliscocáricas e de forte dependência, às vezes
bordejando a posição depressiva, mas com pouca propensão à reparação do objeto.
Rápida oscilação transferencial. Por vezes, dá a impressão de transferência
psicótica ou caótica. Gera contratransferência intensa, com instilação de
fortes sentimentos contraditórios no terapeuta, causando horror, pena,
paralisação, bloqueio, atuação, necessidade de proteger ou de atacar, perda da
neutralidade e da objetividade. Em vista disso, o tratamento se desenvolve sob
a égide de uma agressividade penetrante por parte dos dois parceiros, mais que
sob o influxo de uma relação libidinal sublimada, como nos neuróticos.
O paciente borderline
apresenta ainda outros traços típicos. Labilidade emocional. Ataques de fúria e
de ódio. Apego excessivo à relação terapêutica. Forte tendência a apresentar
uma dependência recalcitrante. Necessidade de exibicionismo. Manifestações de
pseudo-hipersexualidade, conduta inconstante e caprichosa. Uso – e abuso – da
paciência do terapeuta, colocando em constante teste a sua capacidade, os seus
limites, a sua calma e tolerância.
O portador de estruturação psíquica borderline não é um cliente fácil. Mas tem o seu charme, razão pela
qual muitos terapeutas se tornam hábeis em trabalhar com eles. São tão
nitidamente doentes que, quando nos procuram, não resta a menor dúvida de que
precisam de nossos serviços. No entanto, raramente fazem um processo
terapêutico completo.
O terapeuta aprende
a ser mais modesto e aceitar que, para o paciente borderline,
qualquer auxílio, qualquer alívio, quaisquer das situações que ele ajuda a
equacionar são um benefício e representam muita coisa. Sobretudo, a melhora,
por mínima que seja, impede a cristalização do quadro, previne futuras pioras e
mantém o canal de esperança no humano, carência básica da constelação borderline.
Há ainda outras formas de expressão que caracterizam a
constituição borderline.
1. Ansiedade flutuante, difusa, crônica, sujeita a
estalidos de pânico.
2. Manifestações de ordem neurótica polissintomática:
sintomas grotescos de conversão psicomotora; fobias múltiplas; sérias inibições
acompanhadas de impulsividade, exibicionismo e conduta inapropriada
socialmente; sintomas depressivos variegados;
manifestações obsessivo-compulsivas – excesso de ordem, controle e
limpeza; conduta estrita ou o inverso; reações dissociativas da consciência;
tendências autodepreciativas ou autodesvalorativas sem base realística
consistente; tendências hipocondríacas, masoquistas, paranóides.
3. Comportamentos sexuais perverso-polimorfos, com relato
de práticas sexuais pouco ortodoxas; pseudo-hipersexualismo (já foi dito).
4. Personalidade estruturada segundo as clássicas linhas da
então chamada personalidade pré-psicótica – personalidade anancástica,
esquizóide, paranóide, histeroepiléptica, hipomaníaca, entre outras.
5. Comportamentos
de neurose impulsiva – psicopatia.
6. Tendência a
adicções.
7. Manifestações
caracterológicas de “baixo nível”: comportamento caótico, impulsivo,
irresponsável; busca desenfreada de experiências extremas, altamente perigosas;
pouca consideração pela integridade do outro; ausência de sentido do
comunitário e do social.
8. Código pessoal de ética extremamente severo e
conservador quanto a alguns aspectos e, em relação a outros, de excessiva
permissividade e lassidão moral, que atinge as raias da devassidão.
9. Verdadeiro compromisso com o sofrimento, aprendendo a
extrair de seu pormenorizado e jamais monótono relato a empatia e os aportes
narcísicos de que necessita para manter o nível de organização atingida.
10. Alguns são encantadores e simpáticos, mantendo um
conceito inflado de si mesmo e tudo fazendo para receber elogios e amor. Outros
são extremamente invejosos, maldosos, desapiedados, tendo como único objetivo
de vida tirar partido do outro ou explorá-lo.
11. Sensação de futilidade, de fastio e
inutilidade da vida. Uns poucos manifestam tendências autodestrutivas.
Alguns pacientes apresentam todas essas características
simultaneamente.
A estruturação borderline é uma organização patológica específica da personalidade,
complexa, multivariegada e estável. Demonstra uma sintomatologia plural, cheia
de matizes, que insinua um determinado quadro clínico, uma espécie de forma
inicial que nunca se cristaliza e que reverte caleidoscopicamente: apresenta um
quadro clínico de consistência coloidal – proteiforme – que jamais se fixa. O
emprego maciço de um mecanismo de baixo dispêndio de energia, como a múltipla cisão egóica, é responsável
pela multiplicidade de egos parciais que insurgem no cenário e na vida desses pacientes.
Há um dramático desfile de estados
egóicos subsidiários e coadjuvantes sempre à espera de um ego pontífice
– ator principal – que, reiteradamente, está ausente.
Mais próximo a Hamlet ou Querelle – que
é Édipo –, este é o tipo cada vez mais freqüente de clientes que procuram
nossos serviços.
Síntese
das principais características clínicas da constelação borderline da personalidade
· Sucessão de estados egóicos que afloram à cena da relação
interpessoal, alternativa ou simultaneamente.
· Cisão múltipla do ego.
· Prevalência de cargas afetivas hostis, agressivas, destrutivas.
· Defesa de baixo nível.
· Mudança de registro e de tema – sempre que minimamente acossado.
· Incapacidade de aprender com a experiência.
· Atuação como forma protopática de expressão de afetos e de
sentimentos.
· Tendência a regredir e a se indiferenciar, sob pressão.
· Incapacidade de permuta, troca, intercâmbio.
· Psiquismo apocalíptico, urgente, sob a égide de uma perene
estável instabilidade.
O paciente borderline apresenta quadro estavelmente cambiante, proteiforme,
variegado, passando por múltiplos estados psicopatológicos clássicos, sem
jamais se consolidar em nenhum deles.
Há na história clínica desses pacientes
mais de três diagnósticos psiquiátricos firmados por profissionais competentes,
em diferentes momentos da evolução de sua patologia.
O índice diagnóstico patognomônico é
dado pela multiplicidade de estados egóicos que se deslocam e se sucedem na
cena psíquica.
Não articulam conflitos. São
personalidades que se estruturam pré-edipianamente.
O portador de personalidade borderline apresenta configurações
clínicas variadas; grau de intensidade leve, moderado, grave e gravíssimo. A
afecção pode ter características de relativa benignidade – talvez a maior parte
dos casos - ou de destrutividade – borderline de baixo nível. Uma minoria apresenta alto
grau de malignidade, bordejando uma conduta extrema rumo à delinqüência ou à
criminalidade ou nelas terminando.
Referências
bibliográficas
1.
ALVES, Celso Levi. Organização
fronteiriça de personalidade. Belo Horizonte, 1986.
2.
BAGGIO, Marco Aurélio. Borderline:
formas não- edipianas de constituição do sujeito psíquico. Belo Horizonte:
IEPSI, Griphos, nº 6, 1988
3.
KERNBERG, Otto. Desordenes fronterizos y narcisismo
patológico. Buenos Aires: Paidós, 1979.
4. PAZ, Carlos A.,
PELENTO, Maria L., PAZ, Teresa Olmos de. Estructuras y/o estados fronterizos en
niños, adolescentes y adultos. 3
volumes, Buenos Aires: Nueva Vision, 1976.
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