sexta-feira, 15 de março de 2013

CONTROVÉRSIAS NO ATENDIMENTO DO ADOLESCENTE


PARTE 10

 

CONTROVÉRSIAS NO ATENDIMENTO DO ADOLESCENTE
 

 

                                                                       Voa, pra ser livre valem os riscos

                                                             Voa, foge lá pros altos picos

Canta pra chamar a companheira*

 

 

         O adolescente sofre perdas relativas ao corpo e à concepção de mundo infantis. Obtém ganhos por meio do crescimento do corpo e da expansão da sua participação no mundo. Vive impasses e indefinições, sobretudo quanto à sexualidade e à escolha de gênero. Está autorizado a experimentar uma enorme relação de sendas que estão ao dispor de sua liberdade. O agente cultural – a família – sustenta-o, ao longo dessas vivências. Algum recurso se dissipa. Atos anti-sociais acontecem nesse período de calibragem juvenil.

 

         O adolescente é imaturo. Parte para a vida ignorante – quase inocente. Desinformado, busca avidamente modelos identificatórios provisórios. Dotado de plasticidade afetiva, eivado de boas intenções, procura fazer certo, fazer bem feito e fazer o bem. Desastrado, inábil, destempera tudo. Começa de novo. Aprende a aprender. Aprende com a experiência. Cheio de energia, desenvolve uma verdadeira pluripotencialidade, invertendo e interessando-se por muitas atividades, simultaneamente. Pressente que tem de sair do confortável pântano pegajoso, reino do ctônico, que prevalece no ambiente familiar, e em direção às linhas retas e excelsas da claridade apolínea. (9) Ao deixar o corpo da mãe, tem de se haver com a falta renitente das coisas do mundo, que teimam em ir embora. Suplanta a falta, projetando-se no mundo, conceitualizando e abduzindo, substituindo a materialidade das coisas pela etérea e alusiva certeza dos conceitos, das abstrações e das idéias. Objetaliza as coisas. Cria a lei, a beleza, a ordem, a riqueza, o produto.(7) Traz à luz um novo mundo, um heterocosmo claro, preciso, reto, útil, brilhante, notável. Artificial.

 

         Aos poucos, sente que terá de constituir-se como indivíduo em constante processo de vir-a-ser. Não existe. Não é, a não ser enquanto se está tornando, como ser de ação e de conduta própria. É compelido a erigir-se como pessoa instruída pelo próprio código de valor. Este também é fruto depurado dos constantes embates dos elementos contraditórios que abriga dentro de si, em conflito perene. Comandado por sua arete, torna-se aquele que, de fato, é, no exercício da plenitude inexorável das possibilidades de seu horizonte histórico. Vacilante, errático, incongruente, em eterna transição, é constantemente convidado a se identificar. Metamórfico, sua identidade muda o tempo todo.(4) É como se fosse renitentemente lembrado que deve à sociedade uma pessoa. Espera adquirir capacidade de aprender a viver a vida, extraindo dela sentido, usufruindo prazer, elegendo  destino, assumindo responsabilidade pessoal por si mesmo. Fazer tudo isso com dignidade é pré-requisito para que possa urdir e tecer uma obra. O jovem é imbuído pela masculinidade que o impele para além de si mesmo. Ser jovem é aventurar-se, correr riscos, saborear a variedade da vida. Duas pulsões sexuais parciais cumprem seu papel: a Bemächtigungstrieb ou pulsão de assenhoramento do objeto, pulsão de domínio, que impulsiona ao ato, ao feito, à façanha. E a “pulsão beija-flor”,(6) que o impele ao contato múltiplo, variegado, abrindo o leque das possiblidades de sua experiência.

 

         Adolescer é crescerm expandir-se. Ao longo desse período de vida, o jovem passa por transformações diversas que enriquecem a sua existência.

 

         O adolescente perde

                  · o corpo da infância

                  · os pais da infância

· a identidade infantil

· a concepção do mundo infantil com suas convicções e

   certezas

· a antiga inserção edípica na novela familiar

· a indiferenciação sexual (2)

 

Ganha

         · um corpo novo, desastrado, belo insuficiente, forte

· uma nova floração da sexualidade (5)

· amplitude espacial

· amplitude conceitual.

 

        

         Estranha

                  · o corpo novo vivenciado com inquietude e estranheza

· a sexualidade e a agressividade emergentes

· o mundo adulto

· a leveza arfante da liberdade.

 

         Interroga:

                  · quem sou eu?

· qual é o meu lugar no mundo?

 

         Integra

                  · informações

· vivências

· descobertas

· experiências

· conceitos.

 

         O adolescente é

                  · imaturo

· inseguro

· indiferenciado

· ambíguo

· incongruente.

                  

         Tem licença para experimentar de tudo se pagar os preços sociais exigidos. (2)

 

         Cometerá atos anti-sociais.

 

         Provocará dissipação de recursos. Perdas ocorrerão.

 

         Terá de trabalhar em seqüência. Congruentemente.

 

         Integrará e elegerá modos e práticas de sexualidade.

 

         Evoluirá para relações objetais mais sofisticadas, culturalmente mais eficazes.

 

         Incorporará num único caudal identificatório as miríades de identificações ocorridas ao longo da infância.

 

         Aprenderá a modular anseios ctônicos regressivos, que convidam à dependência e à passividade.

 

         Desenvolverá técnicas de emprego da energia agressiva para vir a adquirir denodo, garra, persistência e capacidade de luta.

 

         Controlará e manejará a culpabilidade inerente ao fato de estar vivo.

 

         Esboçará defesas imperiosas que consigam impedir lesões que menoscabam sua provisão narcísica.

 

         Atravessará ritos de passagens, saindo de condutas típicas da infância para comportamentos de rapaz e de moça.

         Empregará sua vitalidade estuante para provar as coisas todas do mundo, postas ao alcance de seu interesse.

 

         Escapará da tendência filicida, que a geração mais velha lhe oferece, de várias maneiras sutis.

 

         Desenvolverá capacidade de percepção ampliada, enxertada na imaginarização que amplia o alcance das vivências.

 

         Tornar-se-á também capaz de conceitualizar, de criar hipóteses, abduções, conceitos que possam representar a “coisa” – objeto -, desde quando ela se foi como prosença. Passa a operar no campo dos ideais, criando um novo mundo, cheio de arte,filosofia, ciência, política, religião, leis. Para vencer a aspereza e a dureza das coisas do Mundo da realidade – o Mundo tal como é -, erige afanosamente, em heterocosmo, uma cultura. Nele, nela, instala um nicho de idealidade, concebendo formas ideais de ser e de estar. Aprende a transitar com os dois pés metidos no chão da prosaica realidade, as mãos bardando o barro da obra em processo de confecção – poiésis -, o corpo arfante e suado pelo trabalho exercido, e a cabeça metida nas nuvens das idéias e dos ideais, aspirando, com a ingente ação de seu ser, a realizar a utopia que o instrui.

 

         O adolescente usa a liberdade pessoal, estribada pelo suporte afetivo e econômico dos pais, para ampliar a sua participação no espaço e no mundo. Viagens, acampamentos, cursos, namoreos, relações, empregos. Festas e acontecimentos. Iniciativas são tomadas e, logo, abandonadas. O jovem é um perfeito amante do movimento: um nefelibata. Um corpo em dança constante. Em pleno balé de autoconfecção.

 

         Uma pulsão de crescimento impele o jovem a sair de si. A desenvovelar-se. A transformar entranhas em atos, em feitos. O jovem macho é propelido pelo turgor de sua sexualidade a estender-se em direção ao outro. O pênis, ativado pela testosterona, indica a direção: “- É lá!” Lá adiante: em direção ao outro. É no outro que está o complemento. É nele que acontece o milagre da satisfação e do prazer. O macho parte em iniciativa. Ousa, faz, busca. E encontra. Um milagre acontece. A força que o propulsa para além de si, para além do conforto do convívio com seus pais, é enxertada por uma pulsão parcial heterossexualizada. Compelido a deixar o pantonoso regaço materno em direção às vastidões desassombradas do mundo, o jovem queima seus navios: não há mais retorno possível ao seio ctônico da úmida refusão com a grande-mãe. (9)  No entanto, o princípio feminino é hegemônico e prevalente. Um corpo novo, sedutor, verdadeiro sucedâneo da mãe, será descoberto e encontrado. Tal corpo captura a atenção e o interesse do homem, convidando-o a nele se instalar. A natureza cobra o seu preço, impõe-se como sexualidade segmentada, diferenciada primeiro, para, em seguida, impor a composição, o apropinquamento das bordas e das diferenças. Sábia, lenta, longa, experiente, a natureza houve por bem partir o patrimônio genético em duas parcelas. Ninguém é tão poderoso que detenha o poder de gerar a si mesmo. Assim, a natureza impõe ao homem a associação, a parceria. E garantiu-se com o privilégio da diversidade das composições possíveis.

 

         Os sexos são dois: masculino e feminino.

 

         Masculino depende da afirmação e dos bons olhos do outro. Externaliza a pulsão. Aponta. Intruge. Penetra. Separa. Age. Faz. É súbito, rápido, imperioso. Escancarado. Bruto. Quer agora. Usa tempos curtos. Espamódicos. Brilhante. É pura ação. Fogoso. Aéreo. Celeste. Conceitualizador. Tem de se constituir. Para tanto, apropria-se da coisa, do objeto, dela. Transeunte. Façanhudo. Apolíneo. Luminoso. Explícito. Desassombrado.

 

         Feminino enovela e entranha a pulsão. Acolhe. Recebe. Compraz. Funde. Seduz. Lento, vaporoso, lânguido. Suave e charmoso. Sofisticado. “Quem sabe se...” Tempos largos. Extenso. Pantanoso. Úmido, aquoso. Terráqueo. Ctônico. Indiferenciado. É, já, em si. Substrato. Estabelecido. Dado posto. Ponto de inserção. De partida e de chegada. Interno, velado, obscuro. Tergiverso. Sombrio. Enigmático.

 

         Os sexos são três.

 

 Quando há uma biologia sexual determinada, instruída por um espírito que anseia por outro sexo, o sexo da alma não corresponde em absoluto ao do corpo. É o que se encontra em Mademoiselle de Maupin, de Gautier, citada por Camille Pagila.(9:382) Como a natureza não erra, apenas impõe, o terceiro sexo arromba a sexualidade ocidental cristã, contingenciada na estreita e inconfortável partição binária de masculino e feminino. A sexualidade escancara suas fauces: é múltipla, poliversa, terrivelmente perturbadora. Absolutamente indecente, não convencional. Obscena.

 

         Busca-se fazer coincidir empuxo pulsional com biologia e psiquismo. Quando os três se encaixam, é bastante confortável. Quando não, o indivíduo é obrigado a transitar pela periferia do sistema e se safar de qualquer jeito.

 

         O jovem inicia sua vida sexual alocompartida e heterocompartida. A angústia aflora: a delícia e o horror da excitação. A atração pelo sexo e o nojo dele. A nudez e as secreções secretas. O inferno e o céu do repúdio e do bem-querer. A longa espera do macho. A constante tergiversação da fêmea. O inesperado, o escândalo da proposta indecente, o susto, a interrupção. A culpa por se deixar possuir pelos anseios da sexualidade. O recomeço. O espanto com o “- Tão bom!” ou “- É só isso?” A recidiva. A compulsão do eterno continuar querendo.

 

         Camille Paglia afirma que  “o sexo é o elo ritual entre o homem e a natureza.” (9:402) Sexo é ligação direta com o sagrado que habita o homem. Sexo também é a recompensa, a prenda imensa pelas lutas renhidas que o tem de empreender para afastar-se da atração indiferenciadora do regaço materno.

 

                  Ao afastar-se do pólo ctônico, reino da grande-deusa-mãe, o homem tem de conceber-se como identidade. Para isso, erige um heterocosmo próprio, pessoal, secretado na imaginação, erguido a partir das extrapolações conceitualizantes que comete. Um mundo artificial é criado. Composto de leis, de arte, de religião, de filosofia, de ciência e de artefatos, este o mundo da cultura. Um mundo marcado pela brutalidade masculina. Pela incompletude das possibilidades. Condenado pela insatisfação vigente e pela injustiça prevalente. No entanto, é um mundo onde há normas consensualizadas, há direitos vigentes, riqueza em abundância, produtos em pletora. Pelo menos, para uma minoria, há beleza, objetos de arte, vida afluente, medicina de qualidade, seguros para fazer face aos eventos de vida infaustos. Para a maioria, há trabalho mal remunerado. Há estudo e educação para grande parte. Saber, para alguns. Liberdade, para quase todos.

 

         A esperança é inconstante, tremeluzente.

 

         Este é o outro mundo, heterocosmo, civilizador, criado pelo homem, para fugir da obscuridade pegajosa da mãe a quem deve sua vida e que é sua insistente tentação de recaptura.

 

         O adolescente propende a afastar-se de sua família. Do contrário, permanece preso à indiferenciação pessoal, misturado aos fortes atratores papai-mamãe-vovós-irmãos-tios.

 

         Para fazer isso, o adolescente tem de ser ingrato. Junta todo o saldo negativo da relação paterno-filial, denigre os pais, denuncia suas falhas e insuficiências, desqualifica sua família e empreende a metanóia.(1) Sai de casa com o legado dos tesouros absorvidos e assimilados nos muitos quinze, vinte, vinte e cinco anos de convívio familiar. Todo adolescente é um filho perdulário, pródigo, dissipador do amor, da boa vontade e do patrimônio paternos. Vai para o mundo, vasto mundo, com sua capanga mal cheia. O mundo habitualmente o trata de sua maneira típica: com áspera indiferença e obtusa opacidade. O filho anda, transita, conhece, “quebra a cara.

 

         Mas, disso tudo, tira um resultado, pois, como Melim-Meloso, verifica sua pequena potência, sua finitude:

 

Era sujeito a morrer: por isso, queria antes dar uma vista no mundo, a achar a fôrma do seu pé. (10:104)

 

         Quando volta, já é outro, maior, acrescido, transmentalizado. Saiu de casa um fedelho rebelde. Retorna homem feito.(1) Ferido, suado, depurado de ilusões e bobagens. Experiência não se herda nem se transmite. Adquire-se. Os pais, a família funcionam como esteio de suprimento afetivo, emocional, existencial. Os pais propiciam a base econômica da experiência. Suportam a dissipação de recursos. Sobrevivem à rejeição e ao abandono. Estão cônscios de que fizeram aquilo que lhes pareceu o melhor possível para o filho.

 

         Para os pais, é doloroso descobrir que os bons conselhos, as sábias predicações e todo o seu patrimônio experiencial-vivencial, postos à disposição dos filhos, não têm quase nenhum valor, a partir do momento em que eles fazem 14, 15 anos. Ser jovem é assumir como carma ter de ir sozinho, experimentar sozinho, “quebrar a cara” por sua vez. O adolescente tem por maldição ter de ir lá ver qual’é?, medir por sua própria medida. Ele é seu único mestre e seu único adepto. É claro que a turma ajuda, faz onda, vai junto. Mas o processo de amadurecimento é interno, pessoal, solitário, intransferível.

 

         Por isso, é tão difícil para nós, adultos, entrar em sintonia com o adolescente. Ele está em algum estágio inapreensível de sua caminhada. Temos dificuldade de perceber e de avaliar. O jovem precisa deixar a família. Como um filho pródigo.(1) Mas precisa sentir que ela existe, está lá, a sua disposição, para quando quiser ou precisar voltar. Quando volta, já é outro. Deve ser recebido com júbilo. Sem perguntas. Amor é um sentimento incondicional. Por isso, é nobre, grandioso, espiritual.

 

         A sexualidade é o natural da condição humana. Escraviza-nos e se contém na armadura das necessidades do corpo. Sexualidade é luta. Titãs conflagram-se dentro de nós. Um deles atrai-nos para a gostosa refusão ctônica com a deusa-mãe-primeva. “Amor? Só de mãe...” Convite à regressão, à indiferenciação, à úmida desagregação/deliqüescência  com a mãe-natureza. Puro anseio de moleza.

 

         O princípio masculino é outro titã que nos impele a fugir, fobicamente, do colo materno. Ele nos impulsiona a buscar as vastidões desassombradas das coisas do Mundo. Indica que há vida, mais e melhor, nos espaços abertos, nesse vasto campo de caça e de captura do objeto satisfator, no Mundo Externo.(7) Ele quer empenho, façanha, coragem, desempenho, conquista. Macho-masculino-homem: abandonar o útero seguro, aprender a transitar pelo precário e pelo transitório, constituir-se em plena tarefa. Construir um outro mundo, um heterocosmo, a partir do desamparo que nos constitui. Tudo o que está aí, de ruim e de bom, de belo e de grandioso, foi erguido pela ação do princípio masculino. É bom termos orgulho disso. Sobretudo, nesse momento, no Ocidente, onde o homem-macho está sob o ataque denegridor de todos e de tudo. É hora de as mulheres, com seu poderoso princípio feminino, darem uma contribuição até mais efetiva para amenizar as durezas e as iniqüidades da vida.

 

         O homem está cansado de enfrentar sozinho as chuvas, as marcas, as lutas contra o rei e as discussões com Deus (com sua licença, meu padinho Chico.) (8)

 

         Um pouco de inteligência, de saber fazer, mais diligência, é necessário. O que o Homem quer e de que precisa (além da prenda imensa dos carinhos teus, coisa, de resto, já obtida para o usufruto comum) é de mais solidariedade na tarefa de viver. Chega de reclamar. Chega de usufruir sem pagar. É hora de fazer, de se comprometer, de meter a mão na mesma colher. O repto é esse: com o que a mulher, o feminino, pode contribuir para melhorar essa sociedade injusta e excludente que os homens criaram?

 

 

· · · ·

 

 

        Caminhante

        não há caminho

       se faz caminho

       ao caminhar...

 

 

         Os versos de Antônio Machado mostram que o Homem é um ser em constante confecção. Ele não é substrato, dado posto, jazigo, como pode ser  a mulher.  É um ser de transaventura. Mário-Euzinho.(10)  Ser de travessia.

 

         A sexualidade é o carma e a condenação do homem: o corpo sempre pede mais do que obtém. Compelido a só pensar “naquilo”, a brusquidão é o seu sono; o estalido, sua expressão; a inquietude, seu modo-de-estar. Estabanado, sua maldição é continuar querendo...

 

         Por sua vez, ela, a mulher, é tão cara: tão difícil, tão querida, tão onerosa, tão rala!(6) O homem conceitualiza. Fuça, inventa, descobre. “Bola” e investe. Já, já, per-verte. Quem não tem cão, caça com rato. Não pode é experimentar, que gosta. Gostou, acostuma-se. Acostumado, vira hábito, costume, até preferência. Você já comeu tatu? Jacaré? Escargot? Bunda de tanajura?

 

         O Homem descobre as “zil” possibilidades da sexualidade. Elege suas preferências. Sexualidade é mexilhão barbado. Puras per-versões. Cada um come o que gosta.(6) Refusão de nossas doces quentes coisas ensopadas de turgor.

 

· · · ·

 

 

         Vivemos numa luminosa sociedade em que o privilégio da liberdade  é usufruído por todo cidadão. O Brasil é um país livre. O brasileiro desfruta de liberdade. O jovem é cioso de sua liberdade. Liberdade é autarquia – capacidade de se autoconduzir. Implica autonomia – cada um elege os caminhos que lhe parecem mais convenientes. Liberdade é a grande conquista da Revolução Francesa. Igualdade ainda é um anseio comunista. E fraternidade, bem... a fraternidade... ainda permanece sob a égide de Caim.

 

         A liberdade é curiosa. Liberdade é a possibilidade de escolher compromisso. Compromisso é amarra, prisão, restrição de liberdade. Pois é isso: liberdade é uma bolsa cheia de moedas com que me apresento no mercado da vida, para escolher aquelas transações que mediatizam aquilo de que preciso. É claro que faço bons negócios, empenho minha pecúnia e obtenho satisfação. Portanto, a liberdade não é para ser arrogantemente ostentada. É para ser empregada, segundo o meu alvedrio. Não há vida social sem contrato, sem compromisso, sem consensual restrição de liberdade. Uhuuuuuuuuu! Ululante, diria o Nelson.

 

         Liberdade é poder dirigir um automóvel.

 

         Liberdade é poder exercer a sexualidade.

 

         Liberdade é poder oferecer-se no mercado de trabalho.

 

         Liberdade é ocupar espaço sem prejudicar o outro.

 

         Liberdade é aprender a saber o seu direito e respeitar o direito do outro. De todos os outros. Milhões de outros.

 

         Liberdade implica responsabilizar-se por seus atos e por suas opções.(11) 

 

         Este, o difícil e duro jogo da vida adulta: suas ações têm implicações e conseqüências. Ninguém tem o direito de prejudicar outros. Nem você, meu belo jovem.

 

         Liberdade é autoconduzir-se com responsabilidade.

 

         Há normas, há mores, há costumes, há leis vigentes na sociedade em que você vive. Obedeça à sinalização. Ela é sua garantia. Fiança de seu ulterior ato de liberdade.

 

         Nosso jovem tem acerbada consciência de sua liberdade. Isso é bom. Precisamos ensiná-lo a assumir a responsabilidade que lhe cabe no jogo social adulto em que se inicia.

 

         Carro é coisa de vida adulta. Sexo é brinquedo de adulto. Precaução, responsabilidade e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

 

· · · ·

 

 

         O jovem costuma ser  trancado. Evasivo. Rebelde e evitativo. O médico trabalha com demanda, queixa principal, pedido de ajuda. O paciente apresenta-se à consulta aberto em ferida, com uma queixa dolorosa e um pedido de alívio, uma solicitação de lenitivo e uma expectativa de encontrar ajuda eficaz.(3)

        

         A prática médica está lastreada na biologia do paciente. Corpo que adoece, carcaça que encerra e pesa, a biologia é a base da vida. Por meio de disfunções e de sintomas, o corpo exprime seus achaques. A natureza adoece. O médico colhe a anamnese, procede ao exame, instaura toda a propedêutica, dispõe de subsídios para estabelecer um diagnóstico.

 

         Se tudo acontece a partir da natureza do corpo, mediante alterações fisiopatológicas e anatomopatológicas, estamos no terreno tradicional da doença orgânica. Apanágio da medicina.

 

         Se acaso a semiologia não encontra substrato, pode-se expandir a pesquisa para o âmbito das queixas subjetivas do paciente. Quase certo configurar um quadro psicopatológico, este sim, mais afeito ao cotidiano de atuação do médico psiquiatra. Mal-estares convivenciais, hábitos de vida viciosos, condutas autodeletérias, erros de julgamento, defeitos de expressão e de comunicação, más escolhas de vida, tudo isso configura um enorme campo gerador de inquietação, de angústia, de infelicidade, de dor psíquica e de sofrimento. Este, o campo específico de atuação do psicoterapeuta.

 

         O médico lida com corpo, dor, sintoma, achaque, ameaça à integridade da vida. Ouve, diagnostica e prescreve. Opera com técnicas consensualmente validadas, com procedimentos consagrados pela clínica, com medicamentos e com intervenções cirúrgicas. Recebe confidências e intimidades. Deve utilizá-las a favor do diagnóstico e do tratamento.

 

         O médico estabelece uma transação de confiança com seu cliente. A partir do motivo da consulta, estrutura-se a relação. O médico é alguém dotado de dispositivos hábeis em avaliar as causas orgânicas subjacentes ao incômodo do paciente. Uma vez evidenciada a doença, o médico é o forte condutor do processo terapêutico. O poderio de sua voz é contrapartida necessária à responsabilidade que assume.

 

         O médico procura ser empático com o cliente em relação ao seu sofrimento e às suas peculiaridades. Feita sua avaliação, pode decidir informar o paciente sobre a dinâmica de  seus incômodos bem como fornecer subsídios médicos atualizados sobre medidas psico-higiênicas, esclarecendo crendices, contribuindo para dissolver a ignorância e os preconceitos. O médico não abre mão de ser um instrutor de alta qualidade, no que se refere à saúde de seu paciente. Ele é um verdadeiro agente psicopompo – condutor de alentos -, um mentor que indica e direciona os passos futuros na vida do cliente. Informa, esclarece, explica, clareia. Mostra os caminhos. Exige implicação e responsabilidade por parte do paciente, a fim de atingir os objetos terapêuticos colimados. Dispõe-se, facilmente, a formar uma aliança com seu cliente, visando a combater a enfermidade.

 

         O adolescente é trancado, reservado? O médico está aí, apresenta-se na posição de receptividade. Oferece-se duas, três vezes ao jovem. Se este não se abre, paciência, fica para a próxima.

 

         O adolescente é rebelde, provocativo? Um pouco de empatia, uma boa pitada de humor, acrescidos de uma certa maneabilidade  de “entrar na sua” – na do jovem – costumam ser o bastante para construir uma relação suficiente para que o médico possa realizar seu sério trabalho.

 

         O adolescente é tímido, ressabiado? O médico deve acolhê-lo com calor humano, facilitando sua expressão, interrogando-o sobre questões óbvias de seu interesse.

 

         O adolescente é sedutor, provocativo, escrachado? O médico deve cingir-se à sua postura profissional, tolerar certo grau de deboche e não ter pejo de corrigir a situação, chamar a atenção para esta e aquela atitude excessiva do jovem.

 

         O moço ou a moça está iniciando sua vida sexual? O médico deve fornecer informações sobre as dificuldades do relacionamento sexual heterocompartido.

 

         O jovem consulente traz suas angústias de desempenho sexual? Não consegue ter ereção com certa mulher muito querida? “Broxou” ontem e hoje? Ejaculou no varal da cama? Não consegue penetrar? Teme ser criticado pelo olho crítico da parceira?

 

         Tudo isso são acidentes de trabalho, acontecimentos possíveis na vida erótica do macho. Sem motivo para alarme.

 

         Diferenças anatômicas entre os sexos serão mostradas. Diferenças de fisiologia sexual serão explicadas. Sobretudo, mostrar-se-á ao jovem a importância de se ir montando o dispositivo do relacionamento amoroso, pouco a pouco, ao longo do tempo, mediante prática repetida.

 

         A moça traz sua angústia ante a defloração? Receia a dor do coito? Fantasia que irá esvair-se em sangue? Teme ser danificada pela poderosa verga do homem? Sabe usar métodos anticoncepcionais práticos e eficazes?

 

         Ambos os parceiros cuidam de sua saúde física e sexual? Ambos têm consciência de que o delicioso exercício da sexualidade é uma brincadeira de adultos e que, portanto, implica responsabilidade pessoal no que se refere a intimidade, a doença sexualmente transmissível e, sobretudo, a gravidez?

 

         O jovem consulente vem ao médico com um segredo escabroso? Se o segredo for revelado, o médico amortece a bola no peito e bota no terreno: os seres humanos têm a grande incapacidade de nada inventarem de novo que já não esteja na Bíblia. O médico partilha a confidência, divide o peso do segredo e, quase certamente, poderá mostrar ao paciente aspectos amenos, humanos, daquilo que ele, cliente, considera tão insólito.

 

         O jovem revela que acaba de cometer um crime e pede ao médico que mantenha o fato em segredo? Este deve dar conta à sua própria consciência e levar em consideração a lei vigente na sociedade. O médico deve induzir o cliente a partilhar o delito com sua família e com a autoridade competente.

 

         O rapaz anuncia que irá praticar um crime? Ou que irá suicidar-se e pede sigilo ao médico? Este tem de clarear a situação com o jovem, durante a consulta. Logo a seguir, convocar a família, e com ela estabelecer uma estratégia de contenção das ameaças do jovem, visando a protegê-lo dos seus próprios demônios.

 

         O médico tem uma posição pessoal depurada nos longos anos de sua prática clínica. Professa ajudar o paciente, aliviando-o de dores e de angústias sempre que possível. Visa a estimular o cliente a vislumbrar uma senda, até então insuspeita, por onde ele possa levar sua vida adiante. Antevê certos caminhos inadequados que devem ser evitados, prevenindo o pior.

 

         Acima de tudo, o médico amola, diuturnamente, o bisturi da sua incisiva competência, mantendo sempre claro o descortino do grau de sua potência – abdicando de arrogar-se onipotente. Ao assim proceder, o médico sabe que está em plena prerrogativa do exercício da clínica.(3) Clínica médica: esta nobre prática que permite ao homem preparado, diferenciado, dotado de arete, colocar-se ao alcance de seu semelhante e de seu diferente para ajudá-lo.

 

         O dois – médico e paciente – com as mãos na mesma colher. Espantando a ignorância e “sacaneando” a morte...

 

 

 

 


 

Referências bibliográficas

 

1.     BAGGIO, Marco Aurélio. Metanóia. Belo Horizonte. Inédito. 1983.

2.     ________ . O perfil psicológico da adolescência. Belo Horizonte: Boletim Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, nº 21, 1983.

3.     ________ . “A interação médico-paciente”. In Revista Médica de Minas Gerais. V. 1, nº 1, Belo Horizonte, 1991.

4.     _________ .  “Adolescência:  metamorfoses  variegadas”.      In Estudos de Psicanálise nº 12. Círculo Brasileiro de Psicanálise. Belo Horizonte, 1989.

5.     Erotika – conjecturas psicanalíticas. Belo Horizonte: Coopmed, 1992.

6.     ________ . “A mulher no imaginário do homem segundo a Música Popular Brasileira”. In Música popular brasileira: o conscerto da vida. Campinas: Editorial Psy, 1996.

7.     ________ . O psiquismo humano. Belo Horizonte: Escuta, 1995.

8.     HOLLANDA, Chico Buarque de. “Sem fantasia”. LP. Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo. Rio de Janeiro, Philips. 6349146. 1975.

9.     PAGLIA, Camille. Personas sexuais – arte e decadência de Nefertite a Emily Dickinson. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

10.          ROSA, João Guimarães. “Tutaméia”. Terceiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

11.          VAZ, Henrique Cláudio Lima. Antropologia filosófica. 2 volumes. São Paulo: Edições Loyola, 1992.



* “Gaiolas abertas”. João Donato – Martinho da Vila. CD Coisas tão simples. 1995.
 

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