quinta-feira, 14 de março de 2013

A CLÍNICA QUE EU FAÇO


Parte 5

 

A CLÍNICA QUE EU FAÇO

 

 

... habituado a não exigir das almas mais do que elas consentem em dar... (5:36)

 

 

         Quase ninguém mais obtém conforto com a insatisfatória vida que leva. Os grandes sistemas escatológicos propugnados pelas religiões deixaram de ser críveis. As saídas civilizatórias preconizadas no Ocidente redundaram em decepção. O trabalho provou-se uma repetitiva canseira. O amor terminou morno, quase inútil. A conquista do dinheiro tornou-se uma brincadeira sem fim, de mau gosto. A famosa “realização pessoal” nem de longe tem o brilho e o sabor dos folguedos de infância. As diversões, os hobbies, os esportes já cansaram. Os grandes brinquedos, carros, jet skis, lancha, moto, discos, livros, amantes, viagens, tours, recepções, colunas sociais, festas não têm gosto de “quero-mais”.

 

         Já se experimentou o repertório de esoterismos e práticas exóticas, hoje disponíveis, prêt-à-porter.

 

         Está-se em vésperas de entrar na casa dos quarenta anos.

 

         Esse sujeito multivariado em seus códigos e (in)certezas começa a se angustiar. Procura um psicoterapeuta.

 

         Ele quer entender o que se passa com sua vida. Afinal, fez tudo direitinho, conforme prescrevem os bons cânones sociais e se sente cada vez mais aborrecido, infeliz mesmo. Parece que o prazer se esvaiu das coisas. Um fio de cabelo branco na sobrancelha, uma distensão no cotovelo, resultante do jogo de peteca, uma leve pontada no peito, uma discreta dificuldade de desempenho profissional são suaves advertências de que a juventude está despedindo-se e que, pior, a morte ronda por aí, à espreita.

 

         O que quer? Quer compreender o que se passa com ele. Quer que alguém mais experimentado lhe diga o que é isso.

 

         Na maioria das vezes, procura um terapeuta indicado por um amigo.

 

         O que quer é melhorar, de preferência rápidamente e bastante. Se possível, desde ontem. Apresenta seu caso, expõe-se a um diagnóstico, contrata os serviços do terapeuta. Paga honorários. E procura fazer, canhestramente, aquilo que lhe é pedido.

 

         O terapeuta, por sua vez, fica feliz quando é procurado. Sinal inequívoco de que anda nas boas graças de alguém. Recebe gentilmente o cliente, põe-se a escutar seu relato, pergunta aqui, procura esclarecer aquilo ali, tenta levantar os componentes. Termina por agrupar o material, hierarquizando-o, com vistas a elaborar um diagnóstico do caso. Terminará por usar a velha nomenclatura da psicopatologia, com um ou outro aggiornamiento do jargão psicanalítico. A prescrição é inevitável: o sujeito precisa submeter-se a uma psicoterapia.

 

         É claro que o terapeuta dispõe de um treinamento prévio, que pretensamente o capacita a deter uma chave de acesso ao psiquismo do cliente. O fato de a maioria dos terapeutas atuantes hoje, em nosso meio, provir  das Faculdades de Psicologia e professar um jargão lacaniano, rapidamente adquirido há menos de cinco anos, não intimida ninguém. Isso parece suficiente para que o terapeuta se autorize a atender quem quer que se disponha a procurá-lo.

 

         Certos terapeutas mais experientes dispõem de várias chaves de aceso ao psiquismo do sujeito. Ao longo de suas vidas profissionais, foram colecionando uma vasta caixa de ferramentas que se provaram úteis para lidar com as diversas situações que a clínica exige.

 

         Tais terapeutas adquirem uma percepção fina para lidar com aquilo, do material trazido pelo cliente, que tem valor terapêutico. Suas sessões são mais ricas, mais dinâmicas e mais abrangentes. Possuem um índice maior de momentos privilegiados em terapia, nos quais a sintonia de relação terapêutica opera particular efeito transmutador no mundo interno do cliente. Estão, outrossim, mais capacitados para lidar com uma gama mais ampla de variação da clientela, exatamente por assumirem, antes de tudo, a obrigação de atender aqueles que contratam seus serviços. Seu compromisso ético é com o resultado terapêutico possível. Para isso, usam todas as ferramentas que foram sendo forjadas ao longo de sua prática. Seu marco  epistemológico   é  vário.  Pode  ser encontrado em Riobaldo: (4:15)

 

Muita religião, seu môço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de tôdas! Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.

 

Cada religião, cada convicção, cada construção teórica deve ser testada no trato do evento clínico, provando utilidade ao solver a conflitiva do cliente. A teoria é exigida, como abdução, para propor resposta e encaminhamento de boa qualidade àquilo que angustia o paciente.

 

         O terapeuta experimentado já viu muita coisa. Não se deixa fascinar pelos fáceis efeitos pirotécnicos de teóricos amantes da abstração. Impõe uma teoria que seja adequada e pertinente ao tema abordado. Quando não, ela é simplesmente colocada no acervo da cultura inútil. Inverte-se assim a hegemonia até recentemente em vigor: a clínica é o tema, o marco, a casa. A teoria? São variações em torno do tema, firulas, hipóteses. Saques. Delírios. Alternativas. Virações. Explorações desde os alicerces soterrados até as canduras ascendentes das idéias puras. O terapeuta experiente se deixa embalar por todas essas várias ações, porque ele mantém sua liberdade de ter sempre para onde voltar:  a clínica.

 

         A clínica opera com dois temas fundamentais: o sofrimento e a estupidez humana. Aliviar o sofrimento desnecessário, dar ao cliente uma possibilidade de encaminhamento produtivo são uma das metas de todo aquele que se dispõe a atender outro ser humano.

 

         Tentar reduzir o embrutecimento acarretado pela ignorância e pela debilidade de espírito é outro magno objetivo.

 

         O meio utilizado para isso é, privilegiadamente, a palavra. Não a palavra comum, banal, corriqueira. Nem sequer a palavra das pretensas “livres associações de idéias”. Mas a palavra nascente, despida das impurezas da conversa comum, capturada em seu sentido preciso e original. Candente. Verdadeira “brasa assoprada”, rediviva em seu fogo transmutador.

 

O instrumento de corte é o acontecimento. Este, arrevesado, intrometido como fato, remexe o acomodado da conjuntura e revolve o consolidado da estrutura. O evento é aquilo que corta o dado posto e o enxerta de novidade.

 

O psicoterapeuta clínico é aquele que está constantemente em busca  não se sabe de que sabedoria diretamente advinda das coisas. (5:38)

 

O que mais almeja em seu trabalho é vir a descobrir o quem das coisas: a rosação das roseiras; o ensol do sol nas pedras e folhas. O coqueiro coqueirando. As sombras do vermelho no branqueado do azul. A baba de boi da aranha. Luaral. (3:100)

 

O psicoterapeuta quer captar a intimidade enovelada das vivências do sujeito, como gema preciosa, recém-fabricada pelo si-mesmo verdadeiro, trazida a lume nesse momento privilegiado de encontro humano.

 

Essa será a única especificidade da profissão. E seu único e mais forte sentido. Trata-se daquilo que permite aflorar a anormalidade que chancela a peculiar individualidade do sujeito. Ou, ainda, é o momento de cristalização da pura loucura pessoal de cada um, recebida e tratada com o respeito e a dignidade hierática – sagrada – que merece.

 

A clínica é o lugar epistemológico do particular, único, pessoal. Também é o lugar da novidade, da poiesis, do fazer criativo, onde se confecciona a vestimenta moderna que será logo utilizada. Lugar de encontro das  espontaneidades, das variedades.

 

Elis Regina cantava:

                                           Se você gosta de samba

                                      Encosta

                                      E vê se dá...*

 

Lugar das junções e dos encaixes bem encaixados, onde o recorte dos detalhes-críticos de cada um encontra sua articulação, a clínica cria um novo vivencial cheio de interesse. É o local onde um deixa de ser só, torna-se outro, vários, na medida mesma em que se consolida cada vez mais como único. Com liberdade, o cliente junta, acopla, forma nova figura. Exerce seu direito de escolha. Experimenta todas as novas possibilidades. Mantém-se livre para desacoplar-se à sua conveniência, no momento azado. Perde o receio tolo de se enganchar no e com o outro. Adquire a respeitosa prerrogativa de livre transitar pelos meandros das relações de intimidade e de convivência humanas.

 

A clínica é a cozinha. Lugar de cocção, a partir dos ingredientes da despensa do mundo interno do cliente, aliado ao livro de receitas do terapeuta e da parafernália do setting. Aí se coze uma refeição consagrada pelo tradicional. Ou se inventa um prato inteiramente novo. São ingredientes, quantidades, misturas, temperos, cortes, intensidades, transições de fases, mudanças de estados, tempos. Algo aprovado pelo gosto e pela nutrição. O que se almeja é mais um sabor.

 

A clínica é o lugar do rapsodo:(2) aquele artista errante que recita seis mil a doze mil versos da literatura analítica  - leia-se grande comédia humana –, mas que esquece algo, logo tamponado por outro verso. Alguém que omite, inventa, cria, recria, modifica, adultera, com a liberdade que tem de ser aquele que sabe das chaves do fazer.

 

A clínica é pura jam session. (1) Região em que o talento potencial dos protagonistas deforma e distorce o tema, até dele extrair outra coisa. Onde todas as possibilidades são exploradas, todas as composições, ensaiadas. Lugar do súbito, do agora, da  permanente surpresa, na qual cada um se espanta em desvelar aquilo que permanecia em si embutido, entranhado. Ponto de encontro das singularidades onde cada qual contribui para a experimentação e a troca de vivências humanas. Uma oficina especial onde o humano se faz. Jaz.

 

A clínica é ainda o lugar de confecção, a cada momento cortando um modelo adequado às circunstâncias da vida do sujeito. Seu instrumento de corte é o acontecimento. Ele incide sobre o tecido da tranqüilidade do fluxo pulsional e o recorta, sem maiores cerimônias. O evento incide sobre a eterna tendência à constância e à conservação do pulsional. Corta-o. Traspassa-o. Só o fato inquieta, corrompe, instiga o pulsional a sair de si e ir à busca do objeto – qualquer objeto, desde que adequado ao enxertio da pulsão.

 

Somente o acontecimento renova o psíquico, ao impor novas formas de composição possíveis. Complexifica e enriquece a vida, obrigando-a a se transformar. O ato amplia o cabedal do sujeito.

 

Na clínica, recebe-se uma variedade de clientes cujo psiquismo se constituiria segundo os múltiplos módulos da grande comédia humana. Muitos terapeutas professam a crença de que há uma só formulação “científica” acerca do psiquismo humano e de sua patologia. Assim, tudo fica deliciosamente simples: o cliente deve acomodar-se como puder no leito procustiano, já que o terapeuta sutilmente lhe indica que este é o caminho, a verdade e a vida. Funciona? Claro que funciona: antolhos ajudam o burro a empurrar a carroça. É uma proposta de baixa qualidade que não dá guarida à constatação desesperada de Antonin Artaud:

 

O ser tem inumeráveis estados, cada vez mais perigosos.

 

Prefiro os terapeutas inseguros, não-muito-bem-formados num fundamentalismo qualquer, ciscadores, que já fizeram isso e aquilo, passaram por aqui e ali. Aqueles que vão indo e vendo. Curiosos, ávidos de aprendizado. Capazes de tecer o delicado trabalho. Atentos à condução do frágil barco que é o processo terapêutico, mobilizam-no a partir do acomodamento neurótico, manobram-no pelas balizas do porto em direção aos meandros do canal que conduz à barra. São esses os terapeutas cronicamente inferiorizados por estar fazendo outra coisa que não o “ouro puro da psicanálise”. Viradores, tiveram de forjar seu inconsciente com o resto de placenta que roubaram. Tiveram de confeccionar seu próprio repertório pessoal de recursos, para fazer face às multivariegadas situações com que deparam na clínica. Abdicaram de operar com certezas, verdades, ciência, enfim, passando a se guiar pela adequação da ferramenta ajustada a cada seqüência, a cada  circunstância. São habitualmente pessoas mais modestas, que não sabem dar aulas ou falar em público. Costumam ser os melhores clínicos. Pode-se afirmar isso porque eles não têm pejo de firmar contratos singulares, de adequarem-se ao cliente, de trabalhar com o cobre das coisas conscientes – com a nua e crua realidade da vida de cada um. São mais capazes de entrar no jogo lúdico-bélico relacional com o cliente e não se sair mal. Não sabem muito bem por que seu cliente melhora e, às vezes, até se cura. Sabem, isso sim, das chaves do fazer. Atender e acolher.

 

A clínica psicanalítica lida muito mal com a 4ª instância da 2ª Tópica freudiana. A realidade - a dura, cruel, banal realidade - é simplesmente colocada em escanteio. Sem dúvida, porque é muito perturbadora aos espíritos puros. Além disso, a realidade consuetudinária não dá importância ao precioso objeto-formal abstrato da ciência psicanalítica. Ela – a realidade – cursa, impávida colosso, segundo as leis do materialismo positivista e da fenomenologia. Isso aprendem intuitiva ou canhestramente aqueles todos que “só” conseguiram tornar-se “terapeutas”. Como o inconsciente depende da consciência para viger, e o Id tem de pedir auxílio e colaboração ao ego para se expressar, ao fim e ao cabo, uma cerrada hierática postura psicanalítica tem de ceder lugar às peripécias de um ego – Eu –, tendo de se haver com a realidade e o Mundo Externo. Vale lembrar que a pulsão só encontra a satisfação no objeto, e este é, fundamentalmente, encontrado na realidade externa ao sujeito. Também  como o desejo insiste em se realizar, e o único campo possível para isso está, igualmente, no contato com a realidade, enfim, toda a maquinaria intrapsíquica, mais dia menos dia, tem de se haver com a realidade – único campo de acolhimento dos pruridos pulsionais do sujeito, único lugar de satisfação da pulsão e de realização do sujeito. Esta, a realidade, meio malandra, cobra um preço: atravessa o samba, não dá muita importância aos estatutos éticos do inconsciente. Por isso, tais terapeutas obtêm tanto êxito: aprendem a lidar com a realidade vivencial do sujeito, como pessoa, ao mesmo tempo em que trabalham a realidade psíquica daquele.

 

O clínico psi trabalha todo o tempo na corda bamba, sem sombrinha. Procura obter o efeito Zeigarnik. Completar as gestalts incompletas. Recuperar as transferências latentes. Resolvê-las com adequação e felicidade. Propugna pela busca da harmonia possível do ser com as coisas e a natureza. Busca o feliz acaso, o bom encontro, o perfeito encaixe, a justa correlação, a interpretação mutativa, esclarecedora. A ampliação de cabeça. Sabe-se que as pessoas podem crescer, evoluir, melhorar, sempre. E que isso lhes faz muito bem. Trabalha-se com a pessoa concreta, com seus limites e talentos. Não mais se pretende obter modelos a priori – ainda que sejam preconizados por Freud – fortemente idealizados. Não se trabalha com idealidades. O que se busca é a atitude de Zenon:

 

 ...perdia-se nas campinas em busca não se sabe de que sabedoria diretamente advinda das coisas. (5:38)

 

É certo que não há sujeito completamente analisado. Que psicanálise pessoal é um desejável adjutório que não muda grande coisa nas dotações genéticas indômitas do sujeito. O que se obtém de valor são diversos itens de melhoria psíquica.

 

Descobrimos há pouco que, à semelhança dos aviões de última geração – que não voam naturalmente -, a vida psíquica transcorre numa perene “estável instabilidade” que exige microcorreções e macrocorreções o tempo todo. É condenação do ser humano perseverar em existir dentro de um desequilíbrio ótimo.

 

A clínica psi é a base de manutenção, o ponto de respaldo dessa empreitada tão perigosa, que é viver com lucidez.

 

 

 

 

 


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

1.    HOBSBAWM, Eric J. História social do jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

 

2.    KADARÉ, Ismail. Dossiê H. São Paulo: Companhia das Letras. 1990.

 

3.    ROSA, João Guimarães. “Cara-de-bronze”. In No Urubuquaquá, no Pinhém. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.

 

4.    ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.

 
YOURCENAR, Marguerite. A obra em negro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.


* “Caí dentro”. Baden Powell – Paulo César Pinheiro. LP Elis, essa mulher – WEA – Br.36.113. 1979.
 

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