Parte 5
A CLÍNICA QUE EU FAÇO
...
habituado a não exigir das almas mais do que elas consentem em dar... (5:36)
Quase ninguém mais obtém conforto com a
insatisfatória vida que leva. Os grandes sistemas escatológicos propugnados
pelas religiões deixaram de ser críveis. As saídas civilizatórias preconizadas
no Ocidente redundaram em decepção. O trabalho provou-se uma repetitiva
canseira. O amor terminou morno, quase inútil. A conquista do dinheiro
tornou-se uma brincadeira sem fim, de mau gosto. A famosa “realização pessoal”
nem de longe tem o brilho e o sabor dos folguedos de infância. As diversões, os
hobbies, os esportes já cansaram. Os
grandes brinquedos, carros, jet skis,
lancha, moto, discos, livros, amantes, viagens, tours, recepções, colunas sociais, festas não têm gosto de
“quero-mais”.
Já se experimentou o repertório de
esoterismos e práticas exóticas, hoje disponíveis, prêt-à-porter.
Está-se em vésperas de entrar na casa
dos quarenta anos.
Esse sujeito multivariado em seus
códigos e (in)certezas começa a se angustiar. Procura um psicoterapeuta.
Ele quer entender o que se passa com
sua vida. Afinal, fez tudo direitinho, conforme prescrevem os bons cânones
sociais e se sente cada vez mais aborrecido, infeliz mesmo. Parece que o prazer
se esvaiu das coisas. Um fio de cabelo branco na sobrancelha, uma distensão no
cotovelo, resultante do jogo de peteca, uma leve pontada no peito, uma discreta
dificuldade de desempenho profissional são suaves advertências de que a
juventude está despedindo-se e que, pior, a morte ronda por aí, à espreita.
O que quer? Quer compreender o que se
passa com ele. Quer que alguém mais experimentado lhe diga o que é isso.
Na maioria das vezes, procura um
terapeuta indicado por um amigo.
O que quer é melhorar, de preferência
rápidamente e bastante. Se possível, desde ontem. Apresenta seu caso, expõe-se
a um diagnóstico, contrata os serviços do terapeuta. Paga honorários. E procura
fazer, canhestramente, aquilo que lhe é pedido.
O terapeuta, por sua vez, fica feliz
quando é procurado. Sinal inequívoco de que anda nas boas graças de alguém.
Recebe gentilmente o cliente, põe-se a escutar seu relato, pergunta aqui, procura
esclarecer aquilo ali, tenta levantar os componentes. Termina por agrupar o
material, hierarquizando-o, com vistas a elaborar um diagnóstico do caso.
Terminará por usar a velha nomenclatura da psicopatologia, com um ou outro aggiornamiento do jargão psicanalítico.
A prescrição é inevitável: o sujeito precisa submeter-se a uma psicoterapia.
É claro que o terapeuta dispõe de um
treinamento prévio, que pretensamente o capacita a deter uma chave de acesso ao
psiquismo do cliente. O fato de a maioria dos terapeutas atuantes hoje, em
nosso meio, provir das Faculdades de
Psicologia e professar um jargão lacaniano, rapidamente adquirido há menos de
cinco anos, não intimida ninguém. Isso parece suficiente para que o terapeuta
se autorize a atender quem quer que se disponha a procurá-lo.
Certos terapeutas mais experientes
dispõem de várias chaves de aceso ao psiquismo do sujeito. Ao longo de suas
vidas profissionais, foram colecionando uma vasta caixa de ferramentas que se
provaram úteis para lidar com as diversas situações que a clínica exige.
Tais terapeutas adquirem uma percepção
fina para lidar com aquilo, do
material trazido pelo cliente, que tem valor terapêutico. Suas sessões são mais
ricas, mais dinâmicas e mais abrangentes. Possuem um índice maior de momentos
privilegiados em terapia, nos quais a sintonia de relação terapêutica opera
particular efeito transmutador no mundo interno do cliente. Estão, outrossim,
mais capacitados para lidar com uma gama mais ampla de variação da clientela,
exatamente por assumirem, antes de tudo, a obrigação de atender aqueles que
contratam seus serviços. Seu compromisso ético é com o resultado terapêutico
possível. Para isso, usam todas as ferramentas que foram sendo forjadas ao
longo de sua prática. Seu marco
epistemológico é vário.
Pode ser encontrado em Riobaldo:
(4:15)
Muita
religião, seu môço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de tôdas!
Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.
Cada religião, cada convicção, cada construção teórica deve
ser testada no trato do evento clínico, provando utilidade ao solver a
conflitiva do cliente. A teoria é exigida, como abdução, para propor resposta e
encaminhamento de boa qualidade àquilo
que angustia o paciente.
O terapeuta
experimentado já viu muita coisa. Não se deixa fascinar pelos fáceis efeitos
pirotécnicos de teóricos amantes da abstração. Impõe uma teoria que seja
adequada e pertinente ao tema abordado. Quando não, ela é simplesmente colocada
no acervo da cultura inútil. Inverte-se assim a hegemonia até recentemente em
vigor: a clínica é o tema, o marco, a casa. A teoria? São variações em torno do
tema, firulas, hipóteses. Saques. Delírios. Alternativas. Virações. Explorações
desde os alicerces soterrados até as canduras ascendentes das idéias puras. O
terapeuta experiente se deixa embalar por todas essas várias ações, porque ele
mantém sua liberdade de ter sempre para onde voltar: a clínica.
A clínica
opera com dois temas fundamentais: o sofrimento e a estupidez humana. Aliviar o
sofrimento desnecessário, dar ao cliente uma possibilidade de encaminhamento
produtivo são uma das metas de todo aquele que se dispõe a atender outro ser
humano.
Tentar
reduzir o embrutecimento acarretado pela ignorância e pela debilidade de espírito
é outro magno objetivo.
O meio
utilizado para isso é, privilegiadamente, a palavra. Não a palavra comum,
banal, corriqueira. Nem sequer a palavra das pretensas “livres associações de
idéias”. Mas a palavra nascente, despida das impurezas da conversa comum,
capturada em seu sentido preciso e original. Candente. Verdadeira “brasa
assoprada”, rediviva em seu fogo transmutador.
O instrumento de corte é o acontecimento. Este, arrevesado,
intrometido como fato, remexe o acomodado da conjuntura e revolve o consolidado
da estrutura. O evento é aquilo que corta o dado posto e o enxerta de novidade.
O psicoterapeuta clínico é aquele que está constantemente em busca
não se sabe de que sabedoria diretamente advinda das coisas. (5:38)
O que mais almeja em seu trabalho é vir a descobrir o quem das coisas: a rosação das roseiras; o ensol do sol nas pedras e folhas. O coqueiro
coqueirando. As sombras do vermelho no branqueado do azul. A baba de boi da
aranha. Luaral. (3:100)
O psicoterapeuta quer captar a intimidade enovelada das
vivências do sujeito, como gema preciosa, recém-fabricada pelo si-mesmo
verdadeiro, trazida a lume nesse momento privilegiado de encontro humano.
Essa será a única especificidade da profissão. E seu único
e mais forte sentido. Trata-se daquilo que permite aflorar a anormalidade que
chancela a peculiar individualidade do sujeito. Ou, ainda, é o momento de
cristalização da pura loucura pessoal de cada um, recebida e tratada com o
respeito e a dignidade hierática – sagrada – que merece.
A clínica é o lugar epistemológico do particular, único,
pessoal. Também é o lugar da novidade, da poiesis,
do fazer criativo, onde se confecciona a vestimenta moderna que será logo
utilizada. Lugar de encontro das
espontaneidades, das variedades.
Elis Regina cantava:
Se você gosta de samba
Encosta
Lugar das junções e dos encaixes bem encaixados, onde o
recorte dos detalhes-críticos de cada um encontra sua articulação, a clínica
cria um novo vivencial cheio de interesse. É o local onde um deixa de ser só,
torna-se outro, vários, na medida mesma em que se consolida cada vez mais como
único. Com liberdade, o cliente junta, acopla, forma nova figura. Exerce seu
direito de escolha. Experimenta todas as novas possibilidades. Mantém-se livre
para desacoplar-se à sua conveniência, no momento azado. Perde o receio tolo de
se enganchar no e com o outro. Adquire a respeitosa
prerrogativa de livre transitar pelos meandros das relações de intimidade e de
convivência humanas.
A clínica é a cozinha. Lugar de cocção, a partir dos
ingredientes da despensa do mundo interno do cliente, aliado ao livro de
receitas do terapeuta e da parafernália do setting.
Aí se coze uma refeição consagrada pelo tradicional. Ou se inventa um prato
inteiramente novo. São ingredientes, quantidades, misturas, temperos, cortes,
intensidades, transições de fases, mudanças de estados, tempos. Algo aprovado
pelo gosto e pela nutrição. O que se almeja é mais um sabor.
A clínica é o lugar do rapsodo:(2) aquele
artista errante que recita seis mil a doze mil versos da literatura
analítica - leia-se grande comédia
humana –, mas que esquece algo, logo tamponado por outro verso. Alguém que
omite, inventa, cria, recria, modifica, adultera, com a liberdade que tem de
ser aquele que sabe das chaves do fazer.
A clínica é pura jam
session. (1) Região em que o talento potencial dos protagonistas
deforma e distorce o tema, até dele extrair outra coisa. Onde todas as
possibilidades são exploradas, todas as composições, ensaiadas. Lugar do
súbito, do agora, da permanente
surpresa, na qual cada um se espanta em desvelar aquilo que permanecia em si embutido,
entranhado. Ponto de encontro das singularidades onde cada qual contribui para
a experimentação e a troca de vivências humanas. Uma oficina especial onde o
humano se faz. Jaz.
A clínica é ainda o lugar de confecção, a cada momento
cortando um modelo adequado às circunstâncias da vida do sujeito. Seu
instrumento de corte é o acontecimento. Ele incide sobre o tecido da
tranqüilidade do fluxo pulsional e o recorta, sem maiores cerimônias. O evento
incide sobre a eterna tendência à constância e à conservação do pulsional.
Corta-o. Traspassa-o. Só o fato inquieta, corrompe, instiga o pulsional a sair
de si e ir à busca do objeto – qualquer objeto, desde que adequado ao enxertio
da pulsão.
Somente o acontecimento renova o psíquico, ao impor novas
formas de composição possíveis. Complexifica e enriquece a vida, obrigando-a a
se transformar. O ato amplia o cabedal do sujeito.
Na clínica, recebe-se uma variedade de clientes cujo
psiquismo se constituiria segundo os múltiplos módulos da grande comédia
humana. Muitos terapeutas professam a crença de que há uma só formulação
“científica” acerca do psiquismo humano e de sua patologia. Assim, tudo fica
deliciosamente simples: o cliente deve acomodar-se como puder no leito
procustiano, já que o terapeuta sutilmente lhe indica que este é o caminho, a verdade
e a vida. Funciona? Claro que funciona: antolhos ajudam o burro a empurrar a
carroça. É uma proposta de baixa qualidade que não dá guarida à constatação
desesperada de Antonin Artaud:
O ser tem
inumeráveis estados, cada vez mais perigosos.
Prefiro os terapeutas inseguros, não-muito-bem-formados num
fundamentalismo qualquer, ciscadores, que já fizeram isso e aquilo, passaram
por aqui e ali. Aqueles que vão indo e vendo. Curiosos, ávidos de aprendizado.
Capazes de tecer o delicado trabalho. Atentos à condução do frágil barco que é
o processo terapêutico, mobilizam-no a partir do acomodamento neurótico,
manobram-no pelas balizas do porto em direção aos meandros do canal que conduz
à barra. São esses os terapeutas cronicamente inferiorizados por estar fazendo
outra coisa que não o “ouro puro da psicanálise”. Viradores, tiveram de forjar
seu inconsciente com o resto de placenta que roubaram. Tiveram de confeccionar
seu próprio repertório pessoal de recursos, para fazer face às multivariegadas
situações com que deparam na clínica. Abdicaram de operar com certezas,
verdades, ciência, enfim, passando a se guiar pela adequação da ferramenta
ajustada a cada seqüência, a cada
circunstância. São habitualmente pessoas mais modestas, que não sabem
dar aulas ou falar em público. Costumam ser os melhores clínicos. Pode-se
afirmar isso porque eles não têm pejo de firmar contratos singulares, de
adequarem-se ao cliente, de trabalhar com o cobre das coisas conscientes – com
a nua e crua realidade da vida de cada um. São mais capazes de entrar no jogo
lúdico-bélico relacional com o cliente e não se sair mal. Não sabem muito bem
por que seu cliente melhora e, às vezes, até se cura. Sabem, isso sim, das
chaves do fazer. Atender e acolher.
A clínica psicanalítica lida muito mal com a 4ª instância
da 2ª Tópica freudiana. A realidade - a dura, cruel, banal realidade - é
simplesmente colocada em escanteio. Sem dúvida, porque é muito perturbadora aos
espíritos puros. Além disso, a realidade consuetudinária não dá importância ao
precioso objeto-formal abstrato da ciência psicanalítica. Ela – a realidade –
cursa, impávida colosso, segundo as leis do materialismo positivista e da
fenomenologia. Isso aprendem intuitiva ou canhestramente aqueles todos que “só”
conseguiram tornar-se “terapeutas”. Como o inconsciente depende da consciência
para viger, e o Id tem de pedir auxílio e colaboração ao ego para se expressar,
ao fim e ao cabo, uma cerrada hierática postura psicanalítica tem de ceder
lugar às peripécias de um ego – Eu –, tendo de se haver com a realidade e o
Mundo Externo. Vale lembrar que a pulsão só encontra a satisfação no objeto, e
este é, fundamentalmente, encontrado na realidade externa ao sujeito.
Também como o desejo insiste em se realizar,
e o único campo possível para isso está, igualmente, no contato com a
realidade, enfim, toda a maquinaria intrapsíquica, mais dia menos dia, tem de
se haver com a realidade – único campo de acolhimento dos pruridos pulsionais
do sujeito, único lugar de satisfação da pulsão e de realização do sujeito.
Esta, a realidade, meio malandra, cobra um preço: atravessa o samba, não dá
muita importância aos estatutos éticos do inconsciente. Por isso, tais
terapeutas obtêm tanto êxito: aprendem a lidar com a realidade vivencial do
sujeito, como pessoa, ao mesmo tempo em que trabalham a realidade psíquica
daquele.
O clínico psi trabalha todo o tempo na corda bamba, sem
sombrinha. Procura obter o efeito Zeigarnik.
Completar as gestalts incompletas.
Recuperar as transferências latentes. Resolvê-las com adequação e felicidade.
Propugna pela busca da harmonia possível do ser com as coisas e a natureza.
Busca o feliz acaso, o bom encontro, o perfeito encaixe, a justa correlação, a
interpretação mutativa, esclarecedora. A ampliação de cabeça. Sabe-se que as pessoas
podem crescer, evoluir, melhorar, sempre. E que isso lhes faz muito bem.
Trabalha-se com a pessoa concreta, com seus limites e talentos. Não mais se
pretende obter modelos a priori –
ainda que sejam preconizados por Freud – fortemente idealizados. Não se
trabalha com idealidades. O que se busca é a atitude de Zenon:
...perdia-se nas campinas em busca não se sabe
de que sabedoria diretamente advinda das coisas. (5:38)
É certo que não há sujeito completamente analisado. Que
psicanálise pessoal é um desejável adjutório que não muda grande coisa nas
dotações genéticas indômitas do sujeito. O que se obtém de valor são diversos
itens de melhoria psíquica.
Descobrimos há pouco que, à semelhança dos aviões de última
geração – que não voam naturalmente -, a vida psíquica transcorre numa perene
“estável instabilidade” que exige microcorreções e macrocorreções o tempo todo.
É condenação do ser humano perseverar em existir dentro de um desequilíbrio
ótimo.
A clínica psi é a base de manutenção, o ponto de respaldo
dessa empreitada tão perigosa, que é viver com lucidez.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
1. HOBSBAWM, Eric
J. História social do jazz. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1990.
2. KADARÉ, Ismail. Dossiê H. São Paulo: Companhia das
Letras. 1990.
3. ROSA, João Guimarães.
“Cara-de-bronze”. In No Urubuquaquá, no
Pinhém. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.
4. ROSA, João
Guimarães. Grande sertão: veredas.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.
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