quinta-feira, 14 de março de 2013

ESBOÇO DE ABORDAGEM TERAPÊUTICA DO PORTADOR DE PERSONALIDADE BORDERLINE


Parte 9

 

ESBOÇO DE ABORDAGEM TERAPÊUTICA DO PORTADOR DE PERSONALIDADE BORDERLINE

 

 

         Boa parte dos clientes que antes diagnosticávamos como psiconeuróticos, ao cabo de algum tempo de psicoterapia, acabavam-se revelando portadores de personalidade de estruturação borderline.

 

         O próprio “Homem dos Lobos” é prova disso: uma personalidade borderline típica.

 

         Treinados para praticar psicanálise pura, standard, ortodoxa – que se  presta  para  tratar a nervosia e o mal-estar do cidadão comum -, nós, psicanalistas, vemos fracassar uma abordagem estrita no trato desses pacientes. Temos então de abandonar as douradas e queridas certezas de uma prática que funciona bem com histéricos ricos, fóbicos ligeiros e obsessivos operosos. E, naturalmente, com todos aqueles sujeitos cuja patologia é a normalidade.

 

         O psicanalista é instado a descer à prática daquilo que ele mais detesta: a psicoterapia. Tratar. Deixar de ser psicanalista – profissão-função dotada de uma pretensa especificidade - e tornar-se um terapeuta, um arremedo de médico. Uma mistura de charlatão, adivinho, místico, xamã, pai-de-santo e professor – suprema afronta! Tornar-se um mentor. Ou um mestre – que horror! Alguém que, usando   de toda essa alquimia, não perca o TAO e, se possível, seja

ZEN. Na maioria das vezes, é exigir demais do – pobre – especialista. Ele se torna furioso e lança seu mais poderoso anátema:

 

         “Isso não é freudiano. Isso não é psicanálise.”

 

         Alguns, como nós, mais cépticos quanto a excelências autoproclamadas, preferem orientar-se pela clínica, suportar o vitupério dos puristas e partir para a prática. Achamos que, aquém do Édipo, há vida.

 

Os indivíduos portadores de personalidade bordeline, como os brutos, também sofrem. Demandam a clínica na esperança de algum alívio, de uma palavra boa, quem sabe se de uma iluminação, de dois ou três gramas de solidariedade, um grão de sal do saber, umas gotas de alegria e uma pílula benfazeja da tecnologia que mitiguem algum sintoma mais incômodo. Lembramo-nos de que a clínica – essa nobre atividade que exerce o homem, que é cuidar de seu semelhante – já existia antes de Freud e que, certamente, abarca muitas coisas mais além daquilo que apregoa o falso brilhante do reducionismo lacanista. À clínica, pois.

 

         Uma surpresa que a clínica psicanalítica nos proporciona é a de que uma boa parte dos pacientes por nós aceitos para tratamento analítico, a partir de nosso diagnóstico de serem eles portadores de uma psiconeurose, ao cabo de alguns meses – ou anos – de trabalho, revelam-se “chapados/absolutos/completos” possuidores de personalidade borderline.

 

         O paciente bordeline traze às sessões de terapia um amontoado de temas, um contencioso interminável de situações pendentes, uma constelação de afetos, projetos pessoais, decisões tomadas e logo abandonadas, enfim, uma verdadeira “geleca” – esse brinquedo infantil, constituído de uma massa amorfa que toma qualquer forma com que a modelemos, para perdê-la, a seguir, com outra manipulação.

 

         A tarefa terapêutica visa a empenhar-se em tratar um tema de cada vez, com a esperança de que esse tema adquira alguma coalizão, que seja suficiente para servir de suporte – ou de acidente geográfico psíquico – para novos desenvolvimentos. É assim que, de tema em tema, de situação em situação, de item em item, razoavelmente equacionados, estabelece-se um arquipélago de relações de objeto que dão crescente consistência ao psiquismo do sujeito.

 

         Por não dispor de territórios psíquicos devolutos, mas por ter uma psique como massa coloidal amorfa e informe, o fronteiriço não desenvolve o dispositivo de corte (castração), que delimita partes, áreas, setores, barreiras, limites e possibilidades. Aquilo que é amorfo não tem partes nem coisas: é sempre a própria coisa. Indiferenciada. Polipotente, mas ineficaz. Essa perene indiferenciação parece ser a maldição que acomete tipicamente a constelação borderline de personalidade.

 

         Decorre desse fato a enorme dificuldade de o paciente borderline articular os elementos contraditórios que se encaixam no conflito. Maiores dificuldades, ainda, apresenta em conseguir sustentar o conflito ao longo do tempo. Em função disso, retorna aos estágios prévios de coexistência alternada de estados egóicos díspares. Também provém dessa contingência aquela apremiante sensação contratransferencial de que ele vive em contínuos impasses cruciais, sempre em cima do fio da navalha, à beira do total descalabro psíquico. Tal situação  induz, no terapeuta, uma sensação apocalíptica de que está vivendo situações extremas, derradeiras, que – quase – nunca descambam para o completo desastre, mas que se resolvem por meio de soluções folhetinescas, não ortodoxas, que, por sua vez, desembocam em novo impasse crucial, sucessivamente. Dessa maneira, faz o terapeuta se sentir um espectador impotente diante desse incessante desenrolar dramático.

 

         Quem não convive com o conflito nem o sustenta não ascende à posição depressiva – aquela em que o sujeito se dá conta da ambivalência do objeto em relação a ele mesmo: o bom objeto é o mesmo objeto mau e vice-versa. O indivíduo reconhece a própria maldade em relação ao objeto, sente as lesões que lhe infligiu, experimenta a vastidão de destituições acarretadas ao objeto, e, com isso, experiencia anseio doloroso – pining. A partir daí, desenvolve a culpa-sinal, base da instauração de um sofisticado dispositivo intrapsíquico equivalente à inibição intra-específica, que os etologistas descobriram no comportamento de combate dos animais. A vivência de culpa decorrente do ataque ao bom objeto necessitado é o mais eficaz mecanismo psíquico de que dispomos para deter nossa avassaladora destrutividade.

 

         Sem experimentar o anseio doloroso (pining), após tentar destruir o objeto, sem consegui-lo, não se pode reconhecer o outro em sua diferença e, em decorrência disso, passar a se interessar por ele naquilo que possui de individualizado, específico, idiossincrásico e benévolo. É em conseqüência disso que verificamos, clinicamente, que o paciente borderline raramente se interessa pelo objeto a ponto de estabelecer com ele uma enriquecedora relação intercambiante. Na maioria das vezes, suas relações ficam aquém da troca, da permuta, estribadas numa via de mão única – empobrecida e empobrecedora -, interessando-se o paciente pelo objeto apenas na medida em que dele pode extrair algo.

 

         Por isso, o indivíduo borderline raramente entra em trabalho de luto diante de suas perdas e de suas separações. Por via de conseqüência, desenvolve pequena capacidade de reparação e de restituição. Dessa forma, adquire pouca habilidade em assumir a responsabilidade pelos resultados de sua agressividade mal modulada e inadequada. Levando tudo isso em conta, no tratamento desses pacientes, podemos esperar uma baixa capacidade de elaboração de sua conflitiva psíquica. Diferentemente do que percebemos no neurótico, cuja problemática como que patina no atoleiro da compulsão à repetição, no paciente borderline, o que vemos é o sucessivo desenrolar de duas dúzias de enredos que se alternam caleidoscopicamente, apesar de nossos melhores esforços terapêuticos.

 

         Esse fluente material, em jorros sucessivos, claro demais, tocando todos os níveis  e perpassando todos os registros – inconsciente, pré-consciente, consciente; imaginário, simbólico, realidade; id, ego, superego; processo primário, processo secundário; razão, juízo, percepção, atuação, inibição, expressão, criação, pulsão, desejo, interdição, castração; desrecalque e outros -, mantendo inusitadas e curiosas correlações entre si, costuma, inicialmente, maravilhar o psicanalista. O inconsciente que aflora tão vivaz, o experienciar sentido, fazendo-se junto ao mais sagaz insight, seguido de deliberações aparentemente bastante adequadas, tudo isso exuberante, de acordo com as melhores formulações – crenças – teóricas, fascina o analista. Não é raro que ocorra um período de lua-de-mel na relação terapêutica, em que o analista passa a interpretar a e correlacionar, argutamente, as ligações entre os componentes do material trazido pelo paciente. Ao cabo de meses, ou anos, de um tratamento aparentemente bem feito, esgotado todo o seu melhor arsenal terapêutico, ele se espanta ao descobrir que o cliente continua intocado, fazendo a ronda pelos mesmos circuitos – que deveriam ter sido mudados pelas revelações, pelos insights, pelas interpretações argutas formuladas e pelas mudanças de atitude. O terapeuta se decepciona, portanto, ao verificar que o paciente traz, de novo, o mesmo material do início, inalterado.

 

         Essa é uma armadilha comum no trato do paciente borderline, que acarreta, então, ao analista, uma contratransferência negativa súbita, às vezes brutal, carregada de rancor, de desmoralização e de desesperança, que invade e tinge a prossecução do processo terapêutico. Esse é o momento em que muitos analistas jogam a toalha no ringue e se safam, narcisicamente, com um desabafo brilhante: “Ele é inanalisável!” Grande descoberta: era-o desde o início, desde a primeira entrevista. O paciente borderline não precisa de psicanálise, mas de uma outra coisa dela derivada e com ela parecida, ainda inominada...

 

         Outro fator a se exigir da contratransferência é a tendência à excessiva dependência que demandam, na transferência, esses pacientes, contraposta a uma atitude de desprezo e desvalorização que mantêm diante da ajuda recebida.

 

         Dotado de um ego débil, escassamente desenvolvido, com pouco cacife operacional diante das titânicas forças e estruturas em jogo, o paciente borderline tem pouca capacidade de acionar o mecanismo de repressão, tão importante e eficaz para erigir cercas, barreiras e cavar sulcos ou canyons. Por via de conseqüência, o aparelho psíquico desses clientes não oferece resistência diante do conteúdo, não tolerando reconhecer e suportar o conflito, partindo logo para a atuação desbragada – no mais das vezes, antieconômica. Isso exige que o analista funcione como um continente que limite e ordene os conteúdos candentes, que, de outra forma, “entornariam pelas beiradas”, ou inundariam partes do aparelho psíquico,  indiferenciando-o.

 

         O paciente borderline, habitualmente, opera o tempo todo, em análise, dentro de um contexto regressivo de baixo nível. Essa característica de transcurso dentro do processo terapêutico é bastante pesada para o terapeuta. Não é raro que, após interromper seu tratamento, esse paciente atravesse um período de acalmia de suas queixas e atuações e entre numa etapa de vida com maior organização, dando mais atenção às conseqüências de seus atos. Trata-se de uma evolução terapêutica absolutamente paradoxal.

 

         Uma eventualidade perturbadora, por ser desmoralizante, é, pois, aquela que deriva da verificação de que, após anos de trabalho terapêutico aparentemente bem conduzido, o cliente, subitamente, apresenta-se com toda a sintomatologia e a mesma confusão de vida que o trouxeram inicialmente à terapia. Tudo se reapresenta como se estivesse intocado.

 

         Ao assumir o tratamento de um indivíduo portador de personalidade borderline, o terapeuta deve estar cônscio de que há o risco de que anos de tratamento criterioso, com duas, três ou quatro sessões semanais, podem não produzir nenhum câmbio básico consistente.

 

         No trato de clientes com estruturação psíquica borderline, são tecnicamente recomendáveis:

 

         1.Um procedimento psicanalítico modificado ou uma forma de psicoterapia especial expressiva.

        

         2. Uma tolerância às manifestações transferenciais candentes, maciças e aparentemente caóticas. O terapeuta funciona estabelecendo um setting bem enquadrado, criando um continente que recebe e acolhe as manifestações da transferência positiva (Kernberg) ou mesmo da transferência fortemente idealizada (Kohut), suportando a transferência negativa corrosiva e dando sentido à transferência lateral atuada.

 

3. Uma interpretação, tão sistemática quanto tolerável, das manobras e das atuações defensivas por meio das quais se expressa a transferência negativa. A transferência negativa está baseada na agressividade escassamente neutralizada e mal modulada de que esses clientes são portadores, acrescida da convicção pessoal de possuírem violenta maldade absoluta. O trabalho de análise sistemático da transferência negativa, explícita, latente ou encoberta, é essencial para romper o círculo vicioso da projeção e da reintrojeção das representações patológicas precoces de si mesmo e dos objetos, desgastando, aos poucos, a pulsão agressiva hostil que as injeta.

 

4. O desempenho freqüente da função de assinalar aquilo que é experienciado pelo paciente, correlacionando o sentido, a intenção e a conseqüência daquilo que ele vive (a quê?), é um procedimento técnico necessário.

 

         O terapeuta pontua a típica oscilação entre os momentos de projeção que o paciente borderline faz de uma representação de si mesmo e dos objetos. Dirige sua atenção ao fato de que, diante da relação com o outro, esse paciente desfila uma seqüência de egos-manequins, cuja função é perturbar o interlocutor e vestir sua nudez de recursos operatórios relacionalmente válidos. O psiquiatra evidencia o fato de que a excessiva necessidade de dependência, desesperada, exasperante, por vezes pegajosa, é, na realidade, derivada de uma desconfiança rancorosa do outro e de uma incapacidade de se entregar verdadeiramente a alguém.

 

         O paciente borderline apresenta um falso tipo de insight, no qual aparenta perceber os estratos profundos da mente com sua dinâmica inconsciente – exatamente aqueles a que o neurótico tão dificultosamente tem acesso. Isso se explica pela precariedade das barreiras alfandegárias na geografia  entre suas instâncias psíquicas – pouco diferenciadas –, por insuficiência de instauração da máquina de corte a que chamamos castração.

 

         A essa compreensão clara, que surge sem esforço e sem sofrimento, não correspondem mudanças nos elementos em jogo no balanço intrapsíquico nem se amplia a capacidade pessoal do sujeito de lidar com suas incongruências. Na verdade, essa compreensão interna que aparece sem revivência sentida não passa de uma manifestação do funcionamento do modo processo primário do pensamento.

 

         O tratamento do consulente borderline não visa a desenvolver uma neurose de transferência nem a apontar tanto para a busca de material inconsciente reprimido, como é clássico na custosa garimpagem analítica do psiconeurótico, mas, bem ao contrário, objetiva conciliar e integrar aquilo que permite algum tipo de apropinquamento entre elementos psíquicos radicalmente díspares. É necessário estabelecer parâmetros – combinações prévias que fixem limites, espaços e possibilidades de convívio -, para que a terapia possa desenvolver-se positivamente. Tais parâmetros contêm e amortizam as atuações intempestivas, que são a tônica da expressão psíquica desses pacientes.

 

         Ao lado da análise sistemática da transferência negativa e das defesas patológicas correlatas, o trabalho terapêutico se concentra, de maneira especial, no trato com as asperezas e as inconstâncias do contato do paciente com a realidade. Esse é o grande campo de batalha, onde a maior parte do trabalho é feito. O terapeuta que pretende tratar de um cliente borderline tem de abdicar, de início, de operar no admirável conforto de uma técnica pura. Ele se desdobrará para conseguir acompanhar as intermináveis mudanças que o paciente traz a cada sessão. Centrado em si mesmo – e em algumas formulações teóricas e técnicas de sua eleição -, terá que, flexivelmente, ir com o seu paciente até experiências extremas. Maleável, adotará as várias posições e papéis que o manejo do caso exige. O terapeuta do paciente borderline não tem pejo de proibir, estimular, sugerir, refletir com ele, aconselhar, cortar. Sobretudo, aprende a tolerar a vastidão de personagens adotados pelos humanos, para tentar amenizar seu transcurso nesse vale de lágrimas. Será compassivo, ao flagrar seu paciente  - canhestramente – tentando roubar no peso da vida. Preparar-se-á para não esperar o ideal de quem não tem condições de chegar lá. E se terá tornado humilde o bastante para aceitar cada qual segundo sua peculiaridade, seu limite e sua idiossincrasia. O terapeuta do paciente borderline sabe que deve desprover-se do trabalho elaborado com esquemas ideais – ah! Platão, que mal nos fizeste! -, que não passam de imposições ideológicas previamente falidas.

 

         A melhoria das condições operacionais de vida, no contato diuturno com a realidade, é um dos objetivos da terapia do fronteiriço. Ajudá-lo a entender parcelas crescentes do cliente borderline de seu funcionamento psíquico é outra meta terapêutica.

 

         Uma restrita percentagem desses pacientes, com terapia, ascende ao nível da problemática edipiana. Talvez sejam aqueles que apresentam melhor prognóstico. Querer que todo portador de personalidade de estruturação borderline se edipianize em terapia, vale dizer, se neurotize, é pretensão terapêutica por demais idealizada. Aprendemos com eles que há outras formas de equacionamento e funcionamento psíquico, que permitem uma existência diferente – nem pior nem melhor – além daquela do bom-mocismo de Édipo.

 

         Como todos os portadores de personalidade borderline apresentam patologia de caráter mais ou menos severa, decorrente da forte presença de traços narcísicos prevalentes em sua personalidade, vamo-nos haver com desvios de conduta, distúrbios sexuais, tendências à adicção, comportamentos de baixo nível. Tudo isso misturado, mesclado, simultânea ou sucessivamente. Neles encontramos nítidos componentes de estados esquizóides, convivendo com manifestações tipicamente simbióticas ou gliscocáricas. Estão presentes impulsividade com pegajosidade; rupturas e reconciliações, absolutamente inconseqüentes; atitudes enfunadas, positivas, rapidamente dissolvidas por qualquer acontecimento.

 

         Esse coquetel que constitui a estrutura borderline de personalidade exige do terapeuta habilidade em manter relações objetais em situações frustrantes, capacidade de tolerar agressões, baixa expectativa de êxito e muita experiência  - se possível, cultura – no trato das coisas humanas. Só assim ele pode permanecer como uma figura de razoável estabilidade, oferecendo-se como uma base de abastecimento, de apoio e de referência ao mutável e caleidoscópico cliente. Parece pouco, mas vale. Se vale!

 

         A melhoria psíquica do cliente borderline se insinua mediante qualquer uma das seguintes insurgências na clínica:

 

         1. Passagem de comportamentos narcísicos, autocentrados na inflada imagem de si mesmo, para relações empáticas estabelecidas com o outro, o objeto ou o mundo.

 

         2. Evolução dos traços de caráter patológicos em níveis egoassintônicos, incômodos.

 

         3. Ampliação da capacidade de convívio intimizado com o objeto amado, eleito.

 

4. Insinuação da capacidade de desdobrar a função egóica em uma parte observadora e em uma parte experimentadora e, a partir delas, acopladas, a posteriori, da possibilidade  de acionar o aspecto pontífice do ego, extraindo subsídios para escolher e direcionar mais convenientemente seu destino.

 

5. Desenvolvimento da capacidade de auto-reconhecimento, de introspecção e de autocontenção interna.

 

         6. Indícios de que o cliente passa a funcionar, psiquicamente, sob a égide da castração, fato que, ao fim e ao cabo, economiza energia, na medida em que exerce sinalização restritiva a tempo de evitar o dispêndio dissoluto da atuação, mediante o simples acionamento de um sinal de angústia.

 

7. Aprendizado para se conduzir com precaução, enquanto se estabelece uma função antecipatória, decorrente da instalação de uma culpa-sinal no superego, moderando a impetuosidade da ad gredi.

 

8. Possibilidade de o paciente borderline vir a se tornar capaz de aceitar as muito reais e sérias limitações que a vida lhe impôs, a partir, sobretudo, de seu segundo ano de vida. Terá, então, condições de administrar as falhas físicas, psíquicas e existenciais que o marcam, bem como de se resignar ao relativo fracasso dos cuidados de seus pais.

 

         9. Capacidade, dentro desse mesmo diapasão, de renunciar às fantasias e aos ideais irrealísticos, com os quais buscava maquiar, como perfeitas, suas relações anteriores com seus pais.

 

10. Aceitação de que, certamente, nunca chegará aos logros e sucessos obtidos pelas outras pessoas, mas de que poderá realizar – e realizar-se – no estrito campo de seu talento, de suas tendências e de seu denodo.

 

         11. Incremento de um conceito mais integrado – e restaurado – de si mesmo, que é o apanágio do processo terapêutico.

 

         O portador de personalidade de estruturação borderline experimenta mais os frutos do pomar da existência que o neurótico convencional. Uma parcela notável dos homens mais geniais tiveram estrutura borderline de personalidade e se deram bem – e nos propiciaram surpresas e novidades.

 


Referências bibliográficas

 

 

1.    ALVES, Celso Levi. Organização fronteiriça de personalidade. Belo Horizonte, 1986.

 

2.    BAGGIO, Marco Aurélio. Borderline: formas não-edipianas de constituição do sujeito psíquico. Griphos, nº 6, Belo Horizonte: IEPSI, 1988.

 

3.    KERNBERG, Otto. Desordenes fronterizos y narcisismo patológico. Buenos Aires: Paidós, 1979.

 

4.    PAZ, Carlos Alberto, PELENTO, Maria L., PAZ, Teresa Olmos de. Estructuras y/o estados fronterizos en niños, adolescentes y adultos. 3 volumes, Buenos Aires: Nueva Visión, 1976.

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